"Anti-Herói Americano" faz retrato ácido dos EUA

Vencedor do prêmio do júri no Sundance Festival do ano passado, American Splendor foi indicado para o Oscar de roteiro adaptado. A dupla de roteiristas (e diretores) Shari Springer Bergman e Robert Pulcini chegou a ganhar o prêmio do Actors Guild of America, a liga dos roteiristas, mas o Oscar foi para O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei, pelo portentoso trabalho de adaptação da saga criada por J.R.R. Tolkien. Mesmo sem Oscar de roteiro, o filme que estreou na sexta-feira é um programão. American Splendor, que virou, no Brasil, Anti-Herói Americano, representa o cinema independente dos EUA no que tem de melhor.Ultimamente, esse rótulo - filme independente - passou a designar um gênero, como outro qualquer. Muitos diretores já vão para o Sundance, com seus filmes modestos, na expectativa de serem descobertos pelos olheiros das majors. Bergman e Pulcini podem até ir parar em Hollywood, mas o filme deles aponta em outra direção. Sobre Anti-Herói Americano, pode-se dizer que o filme funciona como se o vôo do Todd Solondz de Felicidade - aquele retrato ácido do sonho americano - fosse interceptado pelo Terry Zwigoff de Crumb, que usava o famoso cartunista para fazer um retrato também ácido (ou mais ácido, ainda) da América.Em janeiro de 2003, Anti-Herói Americano foi premiado no Sundance. Em maio, integrou a programação do Festival de Cannes. Desde então, virou cult. Entre os seus admiradores confessos está João Moreira Salles. Embora não seja ensaístico como 1,99, o filme de Berman e Pulcini não deixa de ter elementos que o aproximam do trabalho de Marcelo Masagão. Possui elementos de documentário, ou que sugerem um documentário, mas é ficção. Esse híbrido não fica só aí - Anti-Herói Americano também trafega entre a imagem do cinema e do cartum.A idéia do filme surgiu do produtor Ted Hope, que conseguiu engajar a dupla de diretores e roteiristas no projeto. A história de Anti-Herói Americano refere-se a Harvey Pekar, que existe, mas é tratado como personagem de ficção. O protótipo do loser (perdedor) - personagem que o cinema americano idolatrava nos anos da contracultura, por volta de 1960, mas que tende a ser exorcizado nestes tempos de consumismo e poder do dinheiro -, Pekar encontrou sua via ao escrever as histórias de sua vida cotidiana e ao conseguir que desenhistas famosos as ilustrassem. A série American Splendor lhe valeu até prêmios literários nos EUA. Berman e Pulcini fizeram um filme cheio de invenção visual e provocação, no qual a vida de Pekar é filtrada pelo imaginário de Crumb. É um filme demolidor sobre pessoas comuns. Como em Felicidade, que tinha tudo, menos o sentimento indicado no título, American Splendor põe na tela o reverso do esplendor americano.

Agencia Estado,

26 de abril de 2004 | 12h16

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