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'Anomalisa' É fábula amorosa que tende à estranheza

Animação está na disputa do Oscar deste ano

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2016 | 03h00

O Brasil é citado em Anomalisa, de Charlie Kauffman. O País, lembra um dos seus personagens, é o único que canta (e fala) em português em um continente de língua espanhola. É exceção. Ponto fora da curva. Uma anomalia.

Em busca delas, talvez, esteja o personagem principal desta animação intelectual - Michael Stone, que viaja da Inglaterra para dar uma palestra motivacional em Cincinatti, nos EUA. Stone é autor de um bestseller para vendedores, superestar em sua área. Parece profundamente infeliz e solitário, embora casado e com filhos. No hotel conhece duas fãs, entre elas Lisa, cujo nome entra na composição do título. 

Há, claro, uma associação entre Lisa, a noção de anomalia como ponto fora da curva, e a pintura de Leonardo da Vinci, a Mona Lisa ou Gioconda, exposta no Louvre. Como esta, a Lisa de Kauffman possui um sorriso que, com boa vontade, se pode qualificar de “enigmático”. Pode ser irônico, pode ser apenas um meio sorriso triste. Depende de quem vê. Não importa. O amor pode transformar essa pequena curvatura de lábios em expressão cativante. O amor é um ponto fora da curva. Outra anomalia. 

É, talvez, esse estado de exceção que Charlie Kauffman pretenda discutir nessa animação com bonecos em stop-motion. A técnica (em que os bonecos são fotografados quadro a quadro e depois montados em filme, criando a ilusão de movimento) se presta à recriação do universo de Kauffman. Pois o estado de exceção do amor se dá num quadro geral de melancolia, no qual até mesmo os movimentos parecem difíceis, tendendo à paralisia. É um mundo travado e sem ritmo, diferente de uma sincopada canção brasileira.

 

Essa sensação de mesmice se estende às vozes, que soam iguais para Michael Stone, até que ouve a voz de Lisa, emprestada por Jennifer Jason Leigh, que desponta por sua diferença. A voz de Stone é de David Thewlis. O panorama de fundo também evoca uma triste uniformidade. Os tons são pastel, tanto para os bonecos como para o ambiente. O hotel onde Michael se hospeda (e também onde conhece Lisa) tem corredores intermináveis, que lembram os do fantasmagórico Hotel Overlook, de O Iluminado, de Kubrick. 

Enfim, não faltam referências cultas a este Anomalisa, como é hábito nos trabalhos de Kauffman, como roteirista ou diretor. A questão, aqui, não são as citações, mas o encaminhamento da trama. O filme tem um sentido, digamos assim, dentro das expectativas. Um viajante solitário e infeliz envolve-se numa relação extraconjugal, etc. Logo, porém, o espectador descobrirá que o autor não se conforma como esse desenvolvimento. Prefere alçá-lo a uma dimensão do fantástico, outra de suas predileções.

E, então, caberá ao espectador julgar se o que se segue é o desdobramento possível da história ou se Kauffman força a mão apenas para se mostrar original. Desde que venceu o Oscar de roteiro por Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Sinédoque, Nova York, este já como diretor, Charlie Kauffman se notabiliza pela diferença em um meio - o cinematográfico - que tende à uniformidade. A busca do original a qualquer preço pode ser um traço de distinção, uma anomalia benigna. Pode, também, ser um cacoete.

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