GKids/The New York Times
GKids/The New York Times

Animadores saídos do Studio Ghibli lançam antologia de curtas

Studio Ponoc, criado quando Hayao Miyazaki decidiu se afastar do Studio Ghibli, lança 'Modest Heroes'

Roberto Ito, The New York Times

14 de janeiro de 2019 | 03h00

O que ocorre quando aquele que é o coração e a alma criativa de um estúdio se aposenta? Se estivermos falando de Hayao Miyazaki, o estúdio simplesmente acaba.

Não muito tempo depois de o lendário diretor de animes, hoje com 78 anos de idade, anunciar, em 2013, que deixaria o Studio Ghibli, a produção foi suspensa, encerrando três décadas de atividade com seis filmes indicados ao Oscar, sendo A Viagem de Chihiro vencedor da estatueta. A notícia deixou os fãs de animação em todo o mundo se perguntando se os produtores de amados filmes como Princesa Mononoke e O Castelo Animado ainda lançariam alguma coisa nova.

A decisão dele também deixou no ar outras perguntas. Miyazaki, um dos mais ambiciosos e incansáveis diretores do mundo realmente continuaria aposentado? E o que fariam todas aquelas mentes criativas do estúdio?

Para o produtor de O Conto da Princesa Kaguya (2013), Yoshiaki Nishimura, a resposta era simples, pelo menos em teoria. Ele montaria seu próprio estúdio levando consigo alguns dos melhores animadores do elenco do Studio Ghibli.

O resultado foi o Studio Ponoc, que iniciou suas atividades em 2015 em Kichijoji, a oeste de Tóquio, que abriga o Museu Ghibli e é um importante centro de produção de filmes animados japoneses. Apesar do início difícil – orçamento baixo e dois a três funcionários – o Studio Ponoc rapidamente se expandiu e hoje conta com uma equipe de mais de 400 pessoas.

O primeiro filme lançado pelo estúdio, Maria e a Flor da Bruxa, foi um sucesso, registrando a maior bilheteria no Japão em 2017. O segundo, Modest Heroes, foi lançado nos Estados Unidos nesta quinta-feira, 10.

A transição parecia perfeita até que Miyazaki anunciou, em 2017, que deixaria a aposentadoria para dirigir mais um filme. As teorias foram muitas: ele desejava criar mais um filme para seu neto (foi a explicação do produtor do Studio Ghibli, Toshio Suzuk). O mestre fora atraído pelas promessas da animação por computador (como foi revelado no documentário de 2016, Never-Ending Man: Hayao Miyazaki).

“Honestamente, acho que Miyazaki não é Miyazaki se não estiver criando alguma coisa”, disse Susan Napier, autora de Anime: From Akira to Princess Mononoke e de Miyazaki World: A Life in Art, acrescentando que “é aí que ele está vivo. Ele adora criar e imaginar”.

O que parecia um fim se tornou algo mais – a história sucessiva de dois estúdios, um crescendo e chegando a lugares inesperados e o outro ressuscitado e retornando ao seu foco com um cineasta reverenciado, e ambos tendo como pano de fundo um setor de filmes de animação japonês prosperando como jamais se viu antes. (O sucesso de 2016, Your Name, rendeu US$ 350 milhões e se tornou o anime com a maior bilheteria de todos os tempos).

Se o primeiro filme do Studio Ponoc, Maria e a Flor da Bruxa, tinha elementos em comum com um clássico do Ghibli de 1989, O Serviço de Entregas da Kiki (a jovem protagonista, o familiar, as acrobacias da vassoura voadora), o segundo, Modest Heroes, é outra coisa inteiramente distinta. Em primeiro lugar não é um filme de longa duração, mas uma coleção de curtas, formato que o Ghibli nunca levou aos cinemas comerciais. Se você quer assistir, digamos, a Mr.Dough and the Egg Princess (Sr. Massa e a Princesa do Ovo) ou Water Spider Monmon (A Aranha Aquática Monmon), há apenas um cinema no mundo em que poderá vê-los.

“O Studio Ghibli produz curtas para serem exibidos no seu museu” disse Nishimura. “Mas eles são todos criados e planejados pelo diretor Hayao Miyazaki. Os outros criadores não podem realizá-los”.

No caso de Modest Heroes, alguns dos mesmos artistas estão realizando curtas para serem vistos fora do museu e dirigindo seus próprios trabalhos pela primeira vez.

Kanini e Kanino, do diretor Hiromasa Yonebayashi (O Mundo Secreto de Arrietty), narra a história de dois irmãos caranguejos que deparam com peixinhos ameaçadores e guaxinins em debandada em sua busca para salvar seu pai. 

Em Life Ain’t Gonna Lose, o diretor e animator Yoshiyuki Momose cria um drama da alergia a alimentos que ameaça a vida de um menino (ovos fritos e maionese nunca pareceram tão aterradores).

Em Invisível, Akihiko Yamashita narra a história de um indivíduo que se torna o mais improvável dos heróis de ação animados. O filme, que é sobre um homem invisível, implicou o grande desafio de usar animação desenhada à mão para criar o que era basicamente impossível de desenhar, afirmou Nioshimura.

Os filmes do Studio Ponoc são inteiramente diferentes de dois trabalhos mais recentes do Ghibli: Vidas ao Vento termina com o herói perdendo sua jovem esposa para a tuberculose. E em O Conto da Princesa Kaguya, a história acaba com a heroína deixando seus pais humanos para voltar para sua casa, que fica na lua.

“Muitos dos enredos que criamos no Studio Ghibli eram sobre separação”, disse o diretor Yonebayashi. “Mas, à medida que começamos a produzir outras coisas no nosso novo estúdio, abandonamos essas histórias de separação para contar histórias de coexistência e de encontros.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

Mais conteúdo sobre:
Hayao Miyazakicinemaanimação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.