Animação para adultos vive era de ouro, no Brasil e no mundo

Filmes como ‘Flee’, uma avalanche de séries no streaming e uma dezena de longas nacionais provam a força da linguagem

Mariane Morisawa - Especial para o Estadão

Flee é um dos filmes mais incensados do ano passado. Ganhou o Grande Prêmio do Júri de melhor documentário internacional no Sundance Festival em janeiro, depois de selecionado para Cannes no ano anterior, na edição cancelada pela pandemia. O longa do dinamarquês Jonas Poher Rasmussen tem chances reais de concorrer ao Oscar de produção internacional, documentário e animação e é prova de que o preconceito contra as animações de temáticas mais adultas está diminuindo, e seu espaço fica cada vez maior – até mesmo no Brasil. 

O filme conta a história de Amin Nawabi, nome fictício de um refugiado afegão que é amigo de Rasmussen desde a adolescência. Anos atrás, o diretor tinha visto Valsa com Bashir (2008), em que Ari Folman transformou em um documentário em animação suas experiências como soldado israelense na guerra contra o Líbano na década de 1980. “Percebi ali que a animação é uma arma poderosa para falar de trauma e para contar histórias que são difíceis de ouvir”, disse Rasmussen em entrevista ao Estadão.

O diretor de animação, Marcelo Marão, durante entrevista ao Estadão, realizada em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Wilton Junior/ESTADÃO

A animação adulta está em uma grande fase. Diretores como Wes Anderson e Bong Joon-ho se aventuram na linguagem. Séries como Rick e Morty, Bojack Horseman, Bob’s Burgers, Solar Opposites, Big Mouth, Arcane, Invincible, Star Trek: Lower Decks exploram a avenida aberta por Os Simpsons, Futurama e South Park e fazem sucesso. Isso sem falar dos animes. 

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“São programas em que coisas malucas acontecem, mas que têm tramas e personagens bem desenhados e referências espertas à cultura pop”, disse o ator Thomas Middleditch que, em Solar Opposites, no ar no Star+, faz a voz original de Terry, um alienígena fascinado pela cultura humana, em contraste com seu companheiro Korvo (Justin Roiland), que odeia tudo na Terra. 

Até a franquia Star Trek, que não tinha uma animação desde a década de 1970, entrou na onda, com Star Trek: Lower Decks, sobre a tripulação de apoio de uma das naves menos importantes da Frota Estrelar. A série cômica, no ar no Paramount+, foi criada por Mike McMahan, que fez Solar Opposites com Justin Roiland e foi roteirista e produtor de Rick e Morty.

“A textura é a mesma das comédias animadas adultas modernas, então o ritmo é diferente em relação às outras séries Star Trek”, disse McMahan em entrevista ao Estadão. “O que curto nas séries de animação adultas modernas é que você nunca sabe o que vai acontecer em seguida. Elas vão do hilário ao sério e ao emotivo em poucos segundos, o que é completamente diferente do que dava para fazer quando Os Simpsons começou.”

No Brasil, as séries animadas ainda são majoritariamente voltadas para o público da primeira e segunda infâncias. Mas há motivos de sobra para otimismo, apesar da atual paralisação no setor audiovisual brasileiro. Muitos projetos para adultos ou jovens adultos estão sendo apresentados para as plataformas de streaming, segundo o diretor Marcelo Marão. 

Ele também apontou que, em toda a história do cinema brasileiro, foram produzidos cerca de 50 filmes de animação. No momento, quase 40 estão em produção, sendo nove deles de temáticas adultas, inclusive seu longa de estreia, Bizarros Peixes das Fossas Abissais, que deve ficar pronto no meio do ano. Fora esses, Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente, de Cesar Cabral, estreou recentemente, e Meu Tio José, de Ducca Rios, está concluído, esperando lançamento. 

“A gente ainda está conseguindo trabalhar graças aos mecanismos dos governos anteriores, já que um longa de animação tem produção média de quatro anos”, explicou Marão em entrevista por telefone ao Estadão. “É uma alegria gigante ver esse volume de longas sendo feitos no Brasil, em regiões diferentes, com técnicas e temáticas diferentes.” Há dramas, documentários, comédias. Quatro dos nove são dirigidos ou codirigidos por mulheres. O volume, segundo ele, é fundamental. “Se você faz um por ano, é difícil algum ser espetacular. Se faz dez por ano, mais chances de ter um bom. Se faz cem, talvez tenha meia dúzia de ótimos e uma obra-prima.”

Foto; Divulgação/Jonas Poher Rasmussen Foto:

Marão cita como exemplo o seu próprio longa, feito de forma tradicional, de lápis no papel. O método é completamente diferente até mesmo de uma animação 2D digital. “O primeiro ano foi só para ver como trabalhar de maneira eficiente. Se, ao finalizar este projeto, tivéssemos outro em seguida, daria para aproveitar esse aprendizado. Mas ele vai ficar na gaveta.”

É verdade que muita gente ainda pensa em animação como sinônimo de Pixar e Disney, com produções como Encanto e Luca, feitas para crianças e para famílias. Mesmo com todas as suas credenciais, quando estreou na Dinamarca, Flee (“fuga”, em português) não fez muito sucesso nas bilheterias. “Eu acredito que muita gente não aceita que um documentário pode ser também uma animação, e que uma animação pode ser para adultos”, disse Rasmussen. 

Produções imperdiveis

Perdi Meu Corpo

De Jéremy Clapin. Um homem apaixona-se por uma mão e procura o corpo à qual ela pertence, vagando pelas ruas de Paris.

 

Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente

De Cesar Cabral. O personagem criado por Angeli vive aventura pós-apocalíptica neste longa-metragem em stop motion.

 

Rick e Morty

Criação de Justin Roiland e Dan Harmon. Nesta série de ficção científica, o adolescente Morty vive altas aventuras com seu avô, Rick, um cientista genial, mas também um homem excêntrico, alcoólatra a irresponsável.

 

Bojack Horseman

Criada por Raphael Bobwaksberg. Nesta série em que homens e animais antropomorfizados vivem lado a lado, Bojack Horseman é um ex-astro que tenta reviver seus dias de glória.

 

Harley Quinn

Criada por Justin Halpern e Patrick Shumacker. A personagem Arlequina é a estrela desta série sobre suas aventuras e desventuras depois que ela larga o Coringa.

 

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Animação para adultos vive era de ouro, no Brasil e no mundo

Filmes como ‘Flee’, uma avalanche de séries no streaming e uma dezena de longas nacionais provam a força da linguagem

Mariane Morisawa - Especial para o Estadão

Flee é um dos filmes mais incensados do ano passado. Ganhou o Grande Prêmio do Júri de melhor documentário internacional no Sundance Festival em janeiro, depois de selecionado para Cannes no ano anterior, na edição cancelada pela pandemia. O longa do dinamarquês Jonas Poher Rasmussen tem chances reais de concorrer ao Oscar de produção internacional, documentário e animação e é prova de que o preconceito contra as animações de temáticas mais adultas está diminuindo, e seu espaço fica cada vez maior – até mesmo no Brasil. 

O filme conta a história de Amin Nawabi, nome fictício de um refugiado afegão que é amigo de Rasmussen desde a adolescência. Anos atrás, o diretor tinha visto Valsa com Bashir (2008), em que Ari Folman transformou em um documentário em animação suas experiências como soldado israelense na guerra contra o Líbano na década de 1980. “Percebi ali que a animação é uma arma poderosa para falar de trauma e para contar histórias que são difíceis de ouvir”, disse Rasmussen em entrevista ao Estadão.

O diretor de animação, Marcelo Marão, durante entrevista ao Estadão, realizada em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Wilton Junior/ESTADÃO

A animação adulta está em uma grande fase. Diretores como Wes Anderson e Bong Joon-ho se aventuram na linguagem. Séries como Rick e Morty, Bojack Horseman, Bob’s Burgers, Solar Opposites, Big Mouth, Arcane, Invincible, Star Trek: Lower Decks exploram a avenida aberta por Os Simpsons, Futurama e South Park e fazem sucesso. Isso sem falar dos animes. 

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“São programas em que coisas malucas acontecem, mas que têm tramas e personagens bem desenhados e referências espertas à cultura pop”, disse o ator Thomas Middleditch que, em Solar Opposites, no ar no Star+, faz a voz original de Terry, um alienígena fascinado pela cultura humana, em contraste com seu companheiro Korvo (Justin Roiland), que odeia tudo na Terra. 

Até a franquia Star Trek, que não tinha uma animação desde a década de 1970, entrou na onda, com Star Trek: Lower Decks, sobre a tripulação de apoio de uma das naves menos importantes da Frota Estrelar. A série cômica, no ar no Paramount+, foi criada por Mike McMahan, que fez Solar Opposites com Justin Roiland e foi roteirista e produtor de Rick e Morty.

“A textura é a mesma das comédias animadas adultas modernas, então o ritmo é diferente em relação às outras séries Star Trek”, disse McMahan em entrevista ao Estadão. “O que curto nas séries de animação adultas modernas é que você nunca sabe o que vai acontecer em seguida. Elas vão do hilário ao sério e ao emotivo em poucos segundos, o que é completamente diferente do que dava para fazer quando Os Simpsons começou.”

No Brasil, as séries animadas ainda são majoritariamente voltadas para o público da primeira e segunda infâncias. Mas há motivos de sobra para otimismo, apesar da atual paralisação no setor audiovisual brasileiro. Muitos projetos para adultos ou jovens adultos estão sendo apresentados para as plataformas de streaming, segundo o diretor Marcelo Marão. 

Ele também apontou que, em toda a história do cinema brasileiro, foram produzidos cerca de 50 filmes de animação. No momento, quase 40 estão em produção, sendo nove deles de temáticas adultas, inclusive seu longa de estreia, Bizarros Peixes das Fossas Abissais, que deve ficar pronto no meio do ano. Fora esses, Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente, de Cesar Cabral, estreou recentemente, e Meu Tio José, de Ducca Rios, está concluído, esperando lançamento. 

“A gente ainda está conseguindo trabalhar graças aos mecanismos dos governos anteriores, já que um longa de animação tem produção média de quatro anos”, explicou Marão em entrevista por telefone ao Estadão. “É uma alegria gigante ver esse volume de longas sendo feitos no Brasil, em regiões diferentes, com técnicas e temáticas diferentes.” Há dramas, documentários, comédias. Quatro dos nove são dirigidos ou codirigidos por mulheres. O volume, segundo ele, é fundamental. “Se você faz um por ano, é difícil algum ser espetacular. Se faz dez por ano, mais chances de ter um bom. Se faz cem, talvez tenha meia dúzia de ótimos e uma obra-prima.”

Foto; Divulgação/Jonas Poher Rasmussen Foto:

Marão cita como exemplo o seu próprio longa, feito de forma tradicional, de lápis no papel. O método é completamente diferente até mesmo de uma animação 2D digital. “O primeiro ano foi só para ver como trabalhar de maneira eficiente. Se, ao finalizar este projeto, tivéssemos outro em seguida, daria para aproveitar esse aprendizado. Mas ele vai ficar na gaveta.”

É verdade que muita gente ainda pensa em animação como sinônimo de Pixar e Disney, com produções como Encanto e Luca, feitas para crianças e para famílias. Mesmo com todas as suas credenciais, quando estreou na Dinamarca, Flee (“fuga”, em português) não fez muito sucesso nas bilheterias. “Eu acredito que muita gente não aceita que um documentário pode ser também uma animação, e que uma animação pode ser para adultos”, disse Rasmussen. 

Produções imperdiveis

Perdi Meu Corpo

De Jéremy Clapin. Um homem apaixona-se por uma mão e procura o corpo à qual ela pertence, vagando pelas ruas de Paris.

 

Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente

De Cesar Cabral. O personagem criado por Angeli vive aventura pós-apocalíptica neste longa-metragem em stop motion.

 

Rick e Morty

Criação de Justin Roiland e Dan Harmon. Nesta série de ficção científica, o adolescente Morty vive altas aventuras com seu avô, Rick, um cientista genial, mas também um homem excêntrico, alcoólatra a irresponsável.

 

Bojack Horseman

Criada por Raphael Bobwaksberg. Nesta série em que homens e animais antropomorfizados vivem lado a lado, Bojack Horseman é um ex-astro que tenta reviver seus dias de glória.

 

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Criada por Justin Halpern e Patrick Shumacker. A personagem Arlequina é a estrela desta série sobre suas aventuras e desventuras depois que ela larga o Coringa.

 

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