Angelopoulos repassa a história de sua geração

Theo Angelopoulos já ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, no começo dos anos 1980, com um filme sobre Alexandre, o Grande. Venceu a Palma de Ouro de Cannes, no final dos90, com A Eternidade e Um Dia. O mestre só precisa ganhar agora o Urso de Berlim para ser o tríplice coroado com o ouro dos mais importantes festivais de cinema do mundo. É a primeira vez que Angelopoulos participa da competição na Berlinale.Supersticioso, impôs só uma condição - quis que seu 12.ª filme, Trilogy: The Weeping Meadow, fosse exibido no dia 12. O filme é magnífico, mesmo que os críticos gregos presentes em Berlim não tenham gostado muito. Um deles achou a visão do grande cineasta ´caricatural´. Angelopoulos sorri com certa tristeza quando conversa com o repórter do Estado. "É por isso que eu digo que me sinto um estranho no meu país. Mais do que isso - acho que sou um exilado no mundo atual. Vivo num estado de exílio interno permanente, sem saber direito onde é o meu lar." The Weeping Meadow é a primeira parte de uma trilogia contando a história de um homem e uma mulher confrontados com os grandes eventos da história do século 20. Um homem e uma mulher,pequenas vidas colhidas no turbilhão da grande história. A mulher é a personagem importante. Os dois próximos episódios serão centrados nela.Chama-se Eleni, de Helena, o mito grego por excelência. "Há elementos de Édipo Rei e de Sete contra Tebas", explica o diretor. "Sou grego e essas tragédias fazem parte do meu background, mas o que eu queria contar aqui é a histórias de amor e do destino dessa mulher." Desde Reconstruction, de 1970, um de seus primeirosd filmes, Angelopulos não se volta para uma personagem feminina. The Weeping Meadow começa em Odessa, em 1919. O fim do projeto inteiro, quando o terceiro filme estiver concluído, será em Nova York, no limiar do século 21. Eleni, no início, é uma criança que conhece o exílio e a morte. Torna-se mulher, mãe, fica sozinha. Sua trajetória vai da inocência à paixão trágica. E tudo naquele suntuoso estilo de planos-seqüência que são a marca do mestre. Angelopoulos possui, como poucos, o segredo da composição dos grupos. Armacenas belíssimas. Sua história evolui cronologicamente, mas pode-se falar em história? The Weeping Meadow desconstrói a própria história por meio de elipses e metáforas. Para o próprio Angelopoulos, todos os seus filmes são elegias, mas esse, maisdo que os anteriores, é uma elegia ao destino e ao espírito humanos."Pertenço a uma geração do pós-guerra que sonhou mudar o mundo e fracassou, mas eu não acho que, por isso, meus filmes sejam pessimistas. Não acredito nem mesmo nessa história de otimismo e pessimismo. Acho que sou melancólico, meus filmes são. Eleni sou eu, testemunhando todos as decepções que marcaram minha geração. O mundo não evoluiu do jeito que queríamos. Carrego essa melancolia que, para mim, é a dignidade do coração confrontado com a derrota daquilo que esperávamos ou em que acreditávamos." Há algo de viscontiano nessa atitude, que evoca O Leopardo, de Luchino Visconti, por mais que os dois filmes sejam diversos. The Weeping Meadow é um grande filme e um forte candidato ao Urso de Ouro.Veja galeria de fotos

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2004 | 18h49

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