AP
AP

Angelina Jolie e Brad Pitt estão em crise, mas só em 'À Beira-Mar'

Escrito e dirigido por ela, drama que se passa nos anos 1970 deve estrear no Brasil em dezembro

Entrevista com

Angelina Jolie

Margy Rochlin, NEW YORK TIMES

12 de novembro de 2015 | 05h00

CALIFÓRNIA - Durante as filmagens de By the Sea (À Beira-Mar), Angelina Jolie Pitt e Brad Pitt – respectivamente no papel de uma ex-bailarina deprimida e de seu marido romancista com bloqueio da criação – usaram um método específico para iluminar o clima muitas vezes sombrio no set. “Correm várias piadas sobre o fato de que ninguém jamais vai querer ser nosso vizinho de novo”, disse Angelina, referindo-se aos seus personagens que, frequentemente, espiam por um buraco dois amantes que estão no quarto de hotel ao lado do seu.

À Beira-Mar, previsto para estrear no Brasil em 5 de dezembro, foi escrito, produzido e dirigido por Angelina e é a primeira vez em que ela e Brad atuam juntos num filme, depois do thriller de 2005, Sr. e Sra. Smith. Deixando de lado as possíveis armadilhas que podem surgir ao dirigir o cônjuge na vida real, o filme é um risco de várias outras maneiras. Ambientado numa cidadezinha do litoral da França, o longa se inspirou nos filmes de arte europeus dos anos 1960 e 1970, e – começa a especulação – conta a história da implosão do casamento de um casal americano.

Numa suíte do Hotel Four Seasons, Angelina, 40, cujo último filme como diretora foi uma história de sobrevivência, Invencível, da 2.ª Guerra, parecia otimista a respeito disso tudo – desde a análise do “fato ou ficção” que À Beira-Mar poderá causar à possível recepção crítica do que ela chamou de “escolha corajosa”. E acrescentou: “Sei que algumas pessoas vão odiá-lo. Outras, adorarão. Foi importante voltar a me sentir uma artista”.

No pulso direito, ela usava um bracelete feito com linha adquirido em recente viagem ao Camboja e uma tatuagem aparecia da manga esquerda do seu vestido bege. Espontânea, engajada, ela falou da influência fundamental do fato de ter os seis filhos com ela na locação e da aplicação de Brad com o francês. “Quando estávamos gravando, ele às vezes dizia: ‘Parece que você me deu dez vezes mais diálogos em francês do que para você mesma’”, contou rindo.

Abaixo alguns trechos da conversa.

Seu primeiro filme exigiu muita pesquisa. Como se preparou para este drama matrimonial dos anos 1970?

Ajudou o fato de o filme ser ambientado na França, então nos concentramos na cultura e na época da história. Mas sou exatamente eu numa página em branco, minha dor, meu eu. Foi uma experiência muito estranha – e acho que não a farei com tanta frequência. (Ri) Eu casei pouco antes. Talvez esse fosse meu estudo.

Na época, você já estava com Brad há cerca de nove anos. O fato de apertar o nó mudou alguma coisa?

Foi uma coisa muito boa. O grande momento foi quando assinei com Brad os papéis (da adoção conjunta) de Maddox e Zahara. Foi uma decisão dos pais juntos, comprometer-se a fazer parte da vida do outro pelo resto da vida. Portanto (o casamento) não estava em causa. De certa maneira, foi bastante casual.

Casual?

O casamento foi na França, mas tivemos de fazer os trâmites legais na Califórnia. Um dia, um assistente nos disse: ‘Vocês precisam assinar alguns papéis’. E entre uma reunião e outra nos disseram: ‘Aqui está a certidão de vocês’. Então alguém falou: ‘O juiz está aí fora’. Nós dissemos: ‘Como assim, o juiz está aí fora’? O juiz entrou e a certa altura, Brad perguntou: ‘A gente precisa se levantar?’. O juiz respondeu: ‘Não’. De repente, percebemos que estávamos casados, do modo mais informal possível.

E pouco tempo depois estavam em Malta para filmar um relacionamento em crise. Esta é sua ideia de lua de mel?

Bom, tecnicamente era uma lua de mel. Alguns dias depois do início das filmagens pensei: É uma ideia péssima. O que eu estava pensando? Isto vai nos destruir antes de a gente começar. Mas na época em que terminamos o filme, tínhamos discutido e tivemos dias ótimos, dias ruins, tudo. Tínhamos chegado ao fim. Aprendemos alguma coisa a respeito um do outro, descobrimos um novo relacionamento de trabalho e passamos a gostar da ideia. As coisas ficam ruins, mas a gente trabalha o problema.

Quando você releu o roteiro do seu filme – que no começo não tinha intenção de interpretar –, como foi se dar conta de que você seria a atriz e enfrentaria dura provas emocionais?

Houve uma série de cenas que quis mudar ou cortar. Percebi que quem estaria nua na banheira seria eu. Mas disse a mim mesma: Deixa disso, você pode mudar ou cortar esta cena porque fez uma mastectomia, ou porque vocês estão casados e as pessoas vão analisar isto ou aquilo. Isto seria uma espécie de trapaça.

Fale do desafio de dirigir e representar no mesmo filme.

Como diretora, tinha de ser muito segura. Meu personagem? Ela não dirigiria nada. Ela é uma bagunça. A dualidade – ser diretora e depois precisar tornar-me uma pessoa tão vulnerável – muitas vezes foi difícil. Há todo um rolo em que eu grito: Corta! Há uma cena em que estou berrando histericamente e gritando corta. Ou uma cena de sexo em que grito corta para Brad. Tinha de rir, era muito engraçado.

São tão poucas as mulheres diretoras empregadas em Hollywood que, recentemente, uma investigação federal quis saber se se tratava de uma discriminação de gênero na indústria. Entretanto, muitas vezes você deu a impressão de resistir à ideia de falar sobre o que é fazer parte de um grupo tão pequeno. Por quê?

Às vezes, as pessoas que estão neste negócio só se preocupam com o fato de que você pertence a uma minoria. Não quero que as pessoas digam: ‘Será que precisamos de uma mulher diretora?’. Quero ouvir: ‘Deveríamos ter um grande diretor para este filme?’. Entretanto, sou a primeira mulher diretora com a qual Brad já trabalhou. Não parece certo, se a gente refletir sobre isso.

Concordo.

O sexismo está em todos os setores e deve ser discutido. Quero dar apoio a outras mulheres por causa das oportunidades que tive – e foram muitas. Como diretora, tento fazer o melhor possível e, ao mesmo tempo, chamar a atenção para o máximo de mulheres diretoras e escritoras. Neste momento, estou produzindo The Breadwinner (A Outra Face), filme de animação sobre o Afeganistão.

O que você acha da primeira experiência de trabalho de Brad com uma diretora?

Não sou apenas uma mulher, mas uma escritora-diretora. Nós somos também marido e mulher. Acho que foi duas vezes mais difícil, sabemos de certas coisas um a respeito do outro. De início, foi um pouco desconfortável. Você quer ser cuidadosa com o que faz e o que não faz. Ao mesmo tempo, ele mais tarde me disse que sentiu que podia ser o mais aberto possível em sua atuação, porque confiava que eu estava lá para ajudá-lo a dar sua melhor interpretação.

No meio de tudo isso, você teve filhos para pôr na cama à noite, um deles adolescente, Maddox, trabalhando como faz-tudo num filme não exatamente para crianças da idade dele.

Ele ficava nas cenas mais leves, mas tínhamos como norma que, em certas cenas ele não ficaria no set. Cresci neste ambiente, de modo que deveria até me sentir mais feliz se as crianças não se interessassem. Mas ele adorou.

Vamos falar dos e-mails hackeados dos executivos da Sony divulgados em 2014. Ficou surpresa quando leu a conversa a seu respeito entre a ex-codiretora da Sony Amy Pascal e o produtor Scott Rudin?

Não li nada daquilo.

Mas ficou sabendo do conteúdo.

Alguém me contou. Há certas coisas que me aborrecem. Os ataques pessoais? Estou acostumada com isso. Honestamente, meu primeiro instinto foi ficar preocupada com Amy. Queria saber se ela estava bem. Não que eu seja santa, mas porque acho que precisamos ter em mente todo o contexto. Ela tem filhos. Sabia que seria um problema para ela.

Voltando à realização de filmes, você já sonhou em voltar a um trabalho menos sério, como a comédia romântica?

Adoro comédias. Mas nunca me pediram para fazer algo do gênero. Tentei fazer comédia quando era mais jovem. Não funcionou. Não me considero muito engraçada.

Em À Beira-Mar, há muita gritaria, choro, bebida e até pontapés. Você se importa que o público veja o filme e dê demasiada importância a ele?

Se as pessoas quiserem achar que temos brigas terríveis, nossas inseguranças e podemos estar deprimidos e emotivos, é claro que isso é verdade. Somos duas pessoas muito humanas e com defeitos. Acho que isso é uma boa coisa para mostrar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.