Ang Lee filma Guerra Civil Americana

Talvez o melhor de Cavalgada com o Diabo, que estréia nesta sexta-feira, seja o relativo distanciamento de como as coisas são vistas. Para um norte-americano, provavelmente seria mais difícil manter uma visão objetiva sobre um dos temas-mito da nação, a Guerra Civil, do que para o estrangeiro Ang Lee, chinês de Taiwan. No entanto, já há algum tempo Lee vem se dedicando ao mundo anglo-saxão com filmes como Razão e Sensibilidade e Tempestade de Gelo. Neste, em particular, faz uma bela radiografia da geração sem rumo dos anos 70 nos Estados Unidos.De modo que esta revisita à Guerra Civil Americana é feita por um olhar estrangeiro, mas de alguém que já procura se tornar próximo de uma realidade cultural que não é a sua. Essa ambivalência faz o interesse, mas também o limite de Cavalgada com o Diabo. Um filme original, pelo menos no ângulo adotado para contar uma história tão veterana na tela quanto o celulóide de ...E o Vento Levou.No clássico de Victor Fleming prevalecia o romantismo do caso entre Rett Buttler e Scarlet O´Hara, mas havia também o pano de fundo, o grande painel dos campos de batalha que dividiram o país entre o sul e o norte. Um épico, com cenas de devastadora beleza, que são esquecidas por causa do caráter um tanto oficial da trama.Ang Lee, pelo contrário, opta pelo pequeno, pelo microcosmo. Seus personagens não fazem parte das forças oficiais em combate. Pertencem a grupos guerrilheiros pró-sulistas. Jake Roedel (Tobey Maguire) é filho de um imigrante alemão criado no Missouri. Jack Chiles (Skeet Ulrich) vem de uma família de ricos proprietários. E Daniel Holt (Jeffrey Wright) é um descendente de escravos que conseguiu a liberdade. A este grupo heterogêneo se junta a jovem viúva Sue Lee (Jewel), que vai se unir a um deles. Aliás, o contrato matrimonial de Sue com um dos membros do grupo rende alguns bons momentos da história. Talvez os melhores, em que a sabedoria meio tosca dos relacionamentos do interior é captada com boa mão pelo diretor.Esse ar de domesticidade que às vezes atravessa Cavalgada com o Diabo pode ser creditado à marca autoral de Ang Lee. Ele é perito nisso, nos climas entre pessoas, frases sintéticas, porém cheias de subentendidos, como se pode ver em trabalhos anteriores como Banquete de Casamento, ou Comer, Beber, Viver . Ao optar por um gênero do qual se espera movimentadas cenas de batalha, Lee busca esse desvio para um campo em que se sente à vontade. É como trazer o jogo para um terreno que lhe é favorável.No entanto, não se faz filme sobre a Guerra Civil Americana sem cenas de ação. Estas são de rigueur. Obrigatórias. E Lee vai a elas, conformado. Não são, obviamente, o que o filme tem de mais brilhante. Funcionam, porque a favor delas está todo um know how acumulado, década após década, por uma indústria sempre competente nesses casos. Competente, porém nada inventiva como não é inventiva, e nem se pede que seja, a linha de montagem de uma indústria automobilística, por exemplo.Esse ar intimista, de grupo, em que Lee joga bem, vai progressivamente perdendo sua inspiração, à medida que Cavalgada com o Diabo se aproxima daquilo que a indústria espera dele. Não são apenas as seqüências de ação, mas também os relacionamentos, e as palavras que vão se tornando previsíveis à medida que a trama progride. A originalidade, que provinha, provavelmente, de um olhar estrangeiro sobre uma realidade que deseja compreender, acaba se disciplinando e, portanto, se perdendo.Lee não é integrado, porque olha aquilo tudo meio de fora. Mas não se mantém suficientemente à distância porque a lógica industrial do produto o impede. Desses impasses simétricos poderia resultar uma obra-prima, mas o que sai é apenas um filme híbrido. Não desprovido de interesse, mas que também não chega a realizar aquilo que promete e com certeza estaria dentro das possibilidades do diretor.Cavalgada com o Diabo (Ride With The Devil). Direção Ang Lee. EUA/99. Duração: 138 minutos.14 anos

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