Andy Garcia desperdiça material rico em A Cidade Perdida

Andy Garcia nasceu em Havana, em 1956, dois anos antes dos eventos que dão início ao longa A Cidade Perdida, que ele dirige e no qual atua - e que entra nesta sexta-feira em cartaz. É decepcionante. Garcia podia ser anticastrista e ter feito um filme denso e de alta qualidade estética, ainda mais que o roteiro é assinado por Guillermo Cabrera Infante, que quando ele nasceu já era um crítico de cinema conhecido em Cuba. No começo dos anos 1970, com o pseudônimo de Guillermo Caín, que usava para criticar, Cabrera Infante assinou o roteiro e ligou seu nome a um grande filme da época - Corrida contra o Destino (Vanishing Point), de Richard C. Sarafian. Quase ao mesmo tempo, publicou Un Oficio del Siglo XX, coletânea que reúne suas críticas e que é livro que se lê com duplo prazer - Infante é grande escritor e analista sutil, que ajuda a descobrir detalhes novos em filmes já exaustivamente dissecados. A cidade perdida do título é Havana. É aí que vive uma família - o pai, velho professor respeitado na universidade, a mãe e os três filhos. Um possui um cabaré, o outro tem perfeita consciência de que aquele restiolo de vida está ruindo e Havana, nos estertores da ditadura de Fulgencio Batista, é uma cidade perdida. Há o terceiro filho, ou irmão, e esse é o mais secreto de todos - parece alienado, um mulherengo que só pensa em rabo-de-saia, mas a mulher que ele persegue é a liberdade, o que o leva a morrer pela revolução. É um filme sobre uma família destruída pelo furacão revolucionário - e que também tenta mostrar como Fidel Castro e o Che traíram o ideal de uma Cuba pluralista e democrática, instituindo a ditadura do proletariado. Cuba, antes da revolução, concentra a delícia de viver. Shows, cabarés, charutos de boa qualidade, rum, belas mulheres. Francis Ford Coppola já mostrou isso, e também a presença de mafiosos na ilha, na segunda parte da monumental saga de O Poderoso Chefão. A atração pela música é muito grande, até porque o solo de sax que inicia e fecha A Cidade Perdida adquire o valor de um manifesto. Quando a comissária do povo exige o banimento do sax da orquestra por ser um instrumento capitalista, Garcia e Infante metaforizam o início da derrocada do sonho da liberdade. A cidade perdida do título ganha outro significado. Havana, como Garcia diz à amada - que permanece na ilha -, é uma rosa. Tem pétalas macias e espinhos. São as duas perdições - a sedução da decadência e a dureza dos novos tempos da perda dos privilégios. Há muita coisa bonita em A Cidade Perdida, ligada, especialmente, à musicalidade cubana. Mas o filme torna-se indefensável. O emblema da mediocridade que toma conta dele está no tratamento tendencioso que o diretor dá à utilização da figura da mulher amada como emblema revolucionário - ela vira uma prostituta - e, claro, à figura do Che. No encerramento do recente Festival do Cinema Latino-Americano, os olhos abertos do Che, abatido na Bolívia, encaram o espectador no fim da primeira parte de A Hora dos Fornos, de Fernando Solanas e Octávio Getino, como um chamamento à ação. Em plena era da globalização, o jovem Ernesto Guevara de Diários de Motocicletas, de Walter Salles, e o Che de Steven Soderbergh, com Benicio Del Toro, que deve estrear até o fim do ano nos EUA, compõem a mesma figura que continua viva como um ícone de resistência. O homem que disse que é preciso endurecer sem perder a ternura, como todo mito, pode ter suas fragilidades (morais, inclusive), mas não teria passado à história se fosse o narcisista cínico e brutal, sem nenhuma compaixão humana, retratado por Andy Garcia e Cabrera Infante. Ambos são cubanos e têm direito de amar a sua Cuba, mas até George W. Bush deve achar esquisito um filme como este.

Agencia Estado,

28 de julho de 2006 | 17h12

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