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Andrucha Waddington levou quatro anos para concluir 'Os Penetras 2'

Filme estreia nesta quinta-feira, 19

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2017 | 16h00

Pouco mais de quatro anos após a estreia de Os Penetras - em 30 de novembro de 2012 -, o 2, com o subtítulo de Quem Dá Mais, desembarca nos cinemas de todo o Brasil em 19 de janeiro. E vai ser um circuito grande - cerca de 700 salas. Foi-se o tempo em que o circuito, em janeiro, sendo temporada de Oscar, estava reservado para Hollywood. O maior sucesso deste começo de ano no Brasil não foi Moana, da Disney, nem Assassin’s Creed, da Warner. Está sendo Paulo Gustavo, com Minha Mãe É Uma Peça 2. Os Penetras entram nesse circuitão, mas vai enfrentar concorrência brava - de outro filme brasileiro, Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood, com Renato Aragão. Na pré-estreia de Os Penetras 2, no Rio, o diretor Andrucha Waddington disse que o ‘serviço’ estava feito e ele ficara feliz de entregar o filme ao público.

Serviço? Não tem nada de pejorativo na palavra. Andrucha conversou brevemente com o repórter, após a sessão, no Rio, mas a entrevista, mesmo, foi feita por telefone, na manhã de sexta, tão logo ele chegou a Lisboa para duas semanas de férias com a mulher, a atriz e escritora Fernanda Torres, e os filhos. Andrucha conta - “Engana-se quem pensa que fazer uma continuação é fácil. Demorei para concluir Os Penetras 2. A ideia da continuação impôs-se de imediato, mas eu comecei a trabalhar no roteiro, fiz dois ou três tratamentos, e era o mesmo filme, com a mesma estrutura. Abandonei. Comecei tudo de novo e, aí, o filme foi para outro lado, não tinha mais nada a ver com o original. Na terceira tentativa, deu certo.”

Para o público que for ver Os Penetras 2, a história oferece agora uma surpresa. Marcelo Adnet, o Marco, trai o amigo Beto/Eduardo Sterblitch e foge com o dinheiro da dupla. Beto fica doidinho, mas foge do hospício justamente para o enterro de Marco. Encontra a ‘gostosa’ Laura (Mariana Ximenes) e o trambiqueiro Nelson (Stepan Nercessian). Mas, ops, não é o falecido que está ali atrás da coluna, no enterro? O que é, o que é?

A trama toma rumos inesperados e, de repente, como parte de um novo golpe armado pelos parceiros - Stepan, Mariana, Danton Mello, como o milionário Santiago, e o espírito de Marco -, Beto está a ponto de se casar com um milionário mafioso russo. Ninguém é perfeito, já dizia Billy Wilder, através do Boca-Larga Joe E. Brown, em Quanto Mais Quente Melhor. A homossexualidade, ou bissexualidade, é o motor da narrativa de Os Penetras 2. Andrucha admite que fez testes de público. “As pessoas opinaram que o filme custava a engrenar e eu cortei sete minutos no começo. 

Também reclamaram do final, que estava confuso, e eu agilizei.” E o casamento gay? “Quanto a isso não havia o que opinar. Nem coloquei como tópico para avaliação. O filme é isso. Mesmo que avaliassem negativamente, não ia mudar nada”, conta o diretor. Stepan e Danton Mello são homofóbicos no filme. Eduardo é ingênuo, puro. Seu personagem possui uma candura... “Gostei da palavra, é isso mesmo. Ele tem candura. Seu afeto transcende essa questão de gênero. Ele é o tipo que pode se apaixonar por outro homem. Tanto isso é verdade que filmei a despedida como uma história de amor. (Billy) Wilder tinha toda razão. Ninguém é perfeito.”

E Andrucha acrescenta que todo o ‘serviço’ - as situações, os diálogos - nasceram de muito trabalho de mesa. “Os atores improvisavam, criavam, e a gente ia incorporando.” Eduardo Sterblitch concorda. “Foi tudo um processo. E eu entendo essa ingenuidade do Beto. Pode até nem parecer, mas eu sou um pouco assim. Andrucha dizia que eu tenho algo de chaplinesco e me pedia para manter o personagem nesse registro. Não vou dizer que, se me apaixonasse por um homem, me casava com ele, mas não tenho grilo com isso nem preconceito contra ninguém. Como ator, tenho de estar apto a entender meus personagens e a expressar as emoções e os sentimentos deles.”

Como diretor, Andrucha Waddington tem um currículo e tanto. Eu Tu Eles, Viva São João, Casa de Areia, Sob Pressão. Ele diz algo parecido com Eduardo - “Meu compromisso é sempre com as histórias que quero contar. Fiz todos esses ajustes no começo e no fim de Os Penetras 2, mas não brinquei com a essência. E é sempre assim. No Eu Tu Eles cortei um prólogo engraçadíssimo de 15 minutos porque não estava servindo à história. Era ótimo, mas o filme já começava com uma barriga. Para que, se não tem nada a ver?” Um filme de plantão médico (Sob Pressão), uma comédia (Os Penetras 2) e, agora, com toda a pausa das férias - “Estou há muito tempo emendando uma coisa na outra; tinha de parar um pouco para curtir a família -, Andrucha já iniciou a montagem do novo filme, um terror (escrito por Fernanda Torres), O Juízo. Como ele pode saltar entre filmes tão distintos? Onde está Andrucha em todos eles?

“Estou no meu compromisso com todos. Há uma matemática de gênero que me atrai muito. O Juízo deu um nó na minha cabeça. Suei para entrar no clima, e na verdade é disso que se trata. Terror, suspense, tudo isso é clima. Às vezes, você demora dias para filmar o que está descrito em cinco, seis linhas no roteiro. Inversamente, filma em meia diária um diálogo de cinco páginas.” Ele se entrega totalmente aos gêneros que aborda. Ajusta a matemática da comédia a Os Penetras 2. “Por mais vulgar que a coisa toda pareça, eu tenho de passar essa ingenuidade do Beto. Sem isso o filme não funciona.” Durante toda a entrevista, Andrucha só se preocupa com uma coisa - “Você não vai entregar o final, hein?” Olha o spoiler! Pois há uma reviravolta, uma surpresa que talvez abra o caminho para o 3.

Na volta de Portugal, Andrucha termina O Juízo e já se prepara, como diretor contratado, para entrar de cabeça em outro projeto. “Fiz o Chacrinha no teatro, como musical. O próximo filme é sobre Chacrinha, mas em outro momento, com outro formato.” Eduardo Sterblitch vai fazer o jovem Abelardo Barbosa. Stepan Nercessian, que foi o Chacrinha do teatro, vai criar uma nova versão do personagem e Paolla Oliveira será Elke Maravilha. Cada vez mais, Andrucha quer viver de cinema, e mais que isso - viver o cinema. Sterblitch, ele, trabalha como um mouro. “Estou com um espetáculo de teatro, Eduardo Sterblitch Não Tem Um Talk Show. Adapto o texto para cada cidade em que me apresento. Agora mesmo, estou escrevendo para a próxima parada, que será Salvador. Também estou na bancada do Amor & Sexo e tenho vários projetos em andamento. Escrevo muito, estou escrevendo para um filme que quero fazer. Tudo vai depender da captação.”

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