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Andrucha Waddington emenda suspense com 'Sob Pressão'

Filme estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 17

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2016 | 05h00

Andrucha Waddington tem andado tão ativo - na vida, na carreira - que só a ideia de desacelerar já o deixa inquieto. Ele deveria iniciar logo a filmagem de seu drama sobre Chacrinha, mas a produção foi adiada. Três meses parado, à espera de quê? Não ele. Andrucha fez um empréstimo bancário e passou na frente um projeto que seria posterior. Na segunda, 14, iniciou, em Barra do Piraí, no Estado do Rio, a filmagem de O Juízo. É o seu terror, baseado num roteiro escrito pela mulher - a atriz, roteirista, romancista, cronista (lá se vai o espaço do texto só para definir as habilidades de) Fernanda Torres. Andrucha está bem animado com sua nova incursão pelo cinema de gênero. Nova? “Sob Pressão também é de gênero”, esclarece. Ou não? Filme de hospital, de suspense. Difícil é enquadrar Sob Pressão num só gênero.

O filme estreia nesta quinta, 17. É ótimo. O melhor Andrucha, e isso não representa pouco, considerando-se que tem no currículo filmes tão diversos quanto Eu Tu Eles, Viva São João, Lope, Os Penetras. Publicidade, ele faz cada vez menos, embora a Conspiração permaneça a sua casa. Fez até musical, no teatro - Chacrinha. Quem ouve falar do seu Chacrinha cinematográfico e pensa que ele vai passar canto e dança pela câmera, vai quebrar a cara. “Chacrinha foi um personagem complexo. Teve uma importância fundamental na história da TV. E começou pela cozinha. As empregadas viam seu programa, as crianças. A classe média começou a fingir que estava vendo de passagem. Virou ‘o’ comunicador.” O repórter lembra o documentário Axé - Canto do Povo de Um Lugar, que passou na Mostra, a ligação platônica de Chacrinha com Sarajane. Ele era meio Alfred Hitchcock, com suas loiras frias. Sublimava o próprio desejo. “Eram histórias de amor sem sexo”, diz Andrucha.

Tem sexo no hospital de Sob Pressão. A jovem médica, bravamente interpretada por Marjorie Estiano... Olha o spoiler. “Fiz várias sessões para médicos, e numa ouvi um dizer que o que nos salva desse estresse medonho é o sexo. Vamos lá!” Sob Pressão era, inicialmente, um projeto de série de TV de Cláudio Torres. Virou filme de Andrucha, com possibilidade - quase 100% - de se transformar em série na sequência. Um hospital encravado na comunidade. Polícias e bandidos trocam tiros toda hora. De quem é a prioridade do atendimento? O chefe da UPP invade a UTI para cobrar o atendimento de seu policial. Dr. Evandro (Júlio Andrade) prioriza o bandido, não por ser bandido, mas por ser o caso mais urgente. A confusão está formada, ainda mais que aparece um riquinho, também cobrando prioridade para seu filho. Quem manda, acha que tem o direito de botar a boca no trombone. “Para mim, não é um tema social. É uma questão de Estado, a saúde. Temos hospitais e políticas públicas que são referências mundiais. Então, por que o SUS está falido e as pessoas morrem na fila do atendimento?”, pergunta o diretor.

Em todo o mundo, os planos de saúde fazem o que podem para driblar os pacientes. No Festival do Rio, na Mostra, em sucessivas pré-estreias Sob Pressão tem animado o debate. Dr. Evandro droga-se. “Tem gente incomodada com isso, mas é uma realidade”, Andrucha constata. A urgência é tão grande, o realismo tão visceral que você vai desviar o olhar quando o bisturi cortar a pele e o sangue jorrar nas cirurgias. Surpresa! É mentirinha - bonecos. “Mas teve momentos em que a gente tinha um só boneco e o corte tinha de ser perfeito, sob pena de estragar a cena. O Júlio (Andrade) teve vários momentos de tensão, nesse sentido.” Andrucha é bom de criar clima, tensão. A função recomeçou no novo set de filmagem, na segunda. “As pessoas nem sabem, mas tem um polo de cinema em Barra do Piraí que funciona mais que o do Rio. Tem muito filme sendo feito na região.”

O Juízo está sendo feito numa fazenda devidamente ‘vestida’ pela produção. É um terror sobrenatural que conta uma vingança de 200 anos. Um conflito que remonta ao tempo da escravidão. “É um filme sobre a história do Brasil, como Casa de Areia.” Andrucha queria que Fernanda Torres atuasse, ela não topou. Nem por isso seu elenco é menos de sonho. “Tenho sete papéis, e são interpretados por Criolo, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Carol Castro, Felipe Camargo, Fernando Eiras e pelo Joaquim, nosso filho (de Fernanda e dele).” Ao contrário de Sob Pressão, filmado em 18 dias, O Juízo vai se estender por cinco semanas, até quase o fim de dezembro. E nem falamos da cerimônia de abertura da Olimpíada, que Andrucha assinou com Fernando Meirelles e Daniela Thomas. Dizer o quê? “Foi maravilhoso. A gente é bom nessa coisa da dificuldade”, ele reflete. “Cada vez que diminuía o orçamento, a gente dizia. ‘Vamos fazer melhor ainda.’ E fizemos.”

 

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