Nilton Fukuda|Estadão
Nilton Fukuda|Estadão

Andréa Beltrão encara a morte 'Em Três Atos'

Atriz está em cartaz com 'Chatô', de Guilherme Fontes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2015 | 05h00

Andréa Beltrão conta para o repórter qual tem sido sua rotina desde que terminou a série Tapas & Beijos. “Praia!” Como assim, praia? “Mar, areia, sabe como é?”, ela brinca. E mostra o braço. Exibe a cor – jambo. Andréa curte as férias globais, mas tem tido de interrompê-las por causa do cinema. Participou do lançamento de Chatô e, agora, de Em Três Atos. O longa de Guilherme Fontes foi a surpresa da temporada. Quem poderia imaginar que o filme maldito, tão malfalado, pudesse ser tão bom? O de Lúcia Murat está estreando nesta quinta, 10. Ensaio poético, longa experimental. Deem o nome que quiserem. Lúcia investiga o tempo, a finitude, a doença.

Ela – Andréa – é a primeira rir. “Durante muito tempo torci para que o filme, já que tinha virado aquele imbróglio, não estreasse. Um ator que também está no elenco um dia me disse que tinha conseguido ver uma parte do material. Acrescentou que o filme era muito ruim e me deu seu veredicto. Disse que eu não estava bem. Aí, comecei a torcer contra. Quando o Guilherme (Fontes) me ligou e disse que o filme ia sair do limbo, minha reação foi – “Não!’ Disse pra ele que não queria nem ver. Mas aí o (Paulo) Betti me disse que o filme era bom e que eu estava ótima. Fui ver e gostei! Do filme e de mim.”

E ela define Chatô como “uma ópera louca”. Sua personagem é a soma de duas figuras reais, mas ela não se preocupou em mimetizar nem uma nem outra. “Bastaram-me o roteiro e as conversas com o Guilherme.” E ela ama ‘aquela’ cena no hospital, quando sua personagem... Ops! Cuidado com o spoiler. Muita gente ainda não viu o filme, não vamos estragar a surpresa. E ela ri do tempo que perdeu, angustiada à toa. “Já que estava tão ruim, como me disse o amigo (muy amigo...), tentava me lembrar da filmagem e das cenas que poderiam ter ficado péssimas.” Pura perda de tempo. “É um filme moderno, inteligente.” O de Lúcia Murat teve outra gênese.

Há tempos, a diretora, atualmente com 67 anos, vinha pensando num filme sobre o envelhecimento. Em Gramado, ela ganhou um prêmio em material – filmes em 35 mm –, que até pensou em vender, mas resolveu usar para documentar a coreografia Qualquer Coisa a Gente Muda, que envolve uma bailarina de 85 anos e outra de 40. Lúcia foi bailarina quando jovem e o espetáculo com Angel Vianna e Maria Alice Poppe mexeu com ela. Terminou virando a base para Em Três Atos, somados a textos de Simone de Beauvoir sobre a condição feminina, ditos por duas atrizes, uma de 80 (Natália Timberg) e a outra nos seus 40 (Andréa). “Lúcia me deu os textos em que Simone reflete sobre a doença e a morte da mãe dela. São textos muito duros. Havia momentos em que eu até achava que não ia conseguir.”

Mas Lúcia nunca teve dúvida de que Andréa daria conta de tanta dureza. “Pode ser que o restante do Brasil a veja como comediante, por conta da Globo, mas nós, no Rio, acompanhamos a carreira dramática da Andréa e sabemos a grande atriz que ela é.” A própria Andréa admite que algum espectador de Tapas & Beijos que entre por acaso no filme de Lúcia poderá ser surpreendido pela densidade do material, mas é só dar uma chance ao filme para ser fisgado (a), ela acredita. “Finitude, morte, perda, todos esses temas são universais.” Se o drama pesado de Em Três Atos era tão difícil, isso quer dizer que, comparativamente, o humor de Tapas & Beijos é mais fácil? “Não mesmo, pelo menos não para mim”, revela.

“Só porque a gente ri, não significa que fazer comédia seja mais leve. Alguém que seja comediante nato talvez tenha facilidade. Eu sou atriz, tenho de processar o material, seja comédia ou drama, não fica tão fácil.” Existem atores que choram de verdade ao fazer cenas dramáticas. “Eu, hein? Quero que o público chore, mas, como atriz, meu ideal é entrar e sair do drama assim, ó (e ela estala o dedo). Como atriz, e com meu amadurecimento, quero fazer papéis cada mais dramáticos. Já pensou se eu fosse me destruir em cena, a cada espetáculo? Não seria vida.”

Com Fernanda Torres, sua parceira (cúmplice?) em Tapas & Beijos, a química foi perfeita desde o início. “Não dá nem para explicar como a gente se afinou tão rápido.” Mas ela arrisca uma possibilidade – “A série era uma reunião incrível de talentos. E havia o diretor...” Ocorre de esse diretor (Maurício Farias) ser marido de Andréa. “Ééé, mas ele é mesmo um grande diretor, Maurício é focado, planeja tudo nem que seja para desfazer o planejado. Ouve as pessoas. E tem liderança. O set dele é sempre uma tranquilidade.” Com Marieta Severo também sempre rolou uma química. “Xiii, há 24 anos que a gente bate um bolão”, brinca. Andréa é divertida. Passa essa alegria pela vida, pelo trabalho. O convite para Em Três Atos é para algo forte, até sofrido, mas não para baixo. “É a vida. Vai querer fugir?”, provoca.

Mutações, pela arte de Lúcia Murat

Lá atrás, Lúcia Murat começou fazendo cinema experimental, ao misturar ficção e documentário em Que Bom Te Ver Viva. Ela segue testando mídias e linguagens, e mistura cinema, dança, teatro e literatura no novo filme, Em Três Atos. Duas mulheres de 80 e 40 anos dançam e expressam as mutações dos próprios corpos. Duas atrizes de 80 e 40 anos levam adiante a reflexão. Envelhecimento, morte, perda. Lúcia acha que fez um filme para mulheres. A experiência de Em Três Atos transcende gêneros.

 

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