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Andrea Beltrão e Daniel Dantas estrelam 'Pequeno Dicionário Amoroso 2'

Dezessete anos depois, Sandra Werneck retoma seu êxito de 1996

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 de julho de 2014 | 02h00

RIO - Sandra Werneck é o tipo da diretora que não consegue passar sem filmar. Depois de Sonhos Roubados, ela se jogou no projeto sobre Marina Silva. Não queria fazer um perfil da política, mas contar sua história anterior, no Acre. Não encontrou nenhum investidor interessado. Sandra começou a se inquietar. Como muitos diretores, ela pensa de vez em quando que vida seus personagens estarão levando. O casal de Pequeno Dicionário Amoroso, de 1996, por exemplo.

A história de Luiza e Gabriel, interpretados por Andréa Beltrão e Daniel Dantas, começou a se (re)desenhar na imaginação da diretora. Ela escreveu o roteiro com Paulo Halm e, desta vez, o mercado correspondeu. Os investidores responderam, mas Sandra, que precisava filmar logo, topou com um problema - o dinheiro ainda não foi liberado pela Ancine e ela não vacilou. Foi ao banco e fez um empréstimo para começar a filmar logo. E assim, na última quinta-feira, dia de jogo da Copa no Maracanã - e feriado municipal na cidade, um calor do cão, sol (quase) a pino às 11 da manhã, ela e sua equipe ocupavam o cemitério São João Batista, para filmar a cena inicial de Pequeno Dicionário Amoroso 2.

De novo, no cemitério? Pois o 1, você deve se lembrar, começava justamente num campo-santo, onde a arquiteta Luiza, fotógrafa por hobby, conhecia o biólogo Gabriel, recém-separado de Bel. Eles hesitavam em se comprometer e os amigos Marta e Barata, Monica Torres e Tony Ramos, davam conselhos, e justamente esses conselhos compunham o dicionário do título. No 2, Luiza, casada, mãe de um menino, enterra o padrasto na cena inicial. Camila Amado faz a mãe. Gabriel vem dar os pêsames à ex-sogra. "O mais interessante da continuação é que não apenas dá prosseguimento à história de Luiza e Gabriel como conta uma outra história. O mundo mudou nesses 18 anos e os personagens acompanharam as mudanças. Gabriel teve outras ligações que não deram certo, Luiza tem marido e filho, mas não está satisfeita. E o garoto já está iniciando sua vida amorosa."

Com a geração dele, tudo é diferente. Nem os sentimentos são os mesmos. Os jovens 'ficam'. Sua gramática amorosa passa pelo celular, pela internet, pelas redes sociais. "O filme dá conta dessas mudanças", diz a diretora. Ou melhor, codiretora. Porque Sandra, como já fez em Cazuza - O Tempo Não Para, que codirigiu com Walter Carvalho, desta vez chamou Mauro Farias para compartilhar a experiência com ela. Mauro, integrante do clã Farias - filho de Roberto, irmão de Lui e Maurício -, atuou ainda menino em As Aventuras do Tio Maneco. O último longa como diretor, O Diário de Tati, já tem oito anos. Mauro tem feito mais televisão.

"Tenho um projeto, um roteiro que, na verdade, é muito parecido com Dicionário 2. A reaproximação de um casal maduro.” Ele acha que a codireção com Sandra não inviabiliza seu desejo de fazer o outro filme. A cena desse dia passa-se na alameda principal do cemitério São João Batista. Há uma árvore enorme, que no início projeta um pouco de sombra, mas o deslocamento do sol torna a luz cada vez mais intensa e a temperatura, inclemente. Na lateral, está o imponente túmulo de Santos Dumont. Mais atrás, uma lápide grande, com apenas uma assinatura, o de Carmem Miranda. E se você der mais alguns passos em direção à saída - à entrada - passa pelo túmulo de Luiz Carlos Prestes.

A filmagem num cemitério dessacraliza o espaço que tem um peso muito forte no imaginário das pessoas. A maquiadora que vai retocar o penteado de Andréa Beltrão apoia suas coisas num túmulo. O pai do garoto que faz o filho senta-se nos degraus de outro. A vida continua - e você não faz ideia de como uma filmagem pode ser complicada. A cena filmada parece simples. A câmera na mão segue o movimento de Luiza, que ampara a mãe. Sem corte, o cameraman que opera a steady faz um movimento para incluir Gabriel, que chega, na cena. O diálogo é breve, mas tem a movimentação do marido e do filho, dos figurantes.

São necessários 12 takes - 12! "Cheguei a criar um poema sobre o take", brinca a diretora, que comemora quando tudo parece dar certo. Há sempre um problema com o som, alguém que se adianta, que se atrasa. "Deu!", exulta Sandra. Mas não deu - o técnico de som veio dizer que Camila Amado colocou a mão no microfone e abafou o som. "A gente dubla", tenta consertar Sandra. Mauro Farias e o diretor de fotografia Luiz Abramo não precisam fazer muito esforço para convencê-la de que é melhor tentar de novo. E valeu a pena. O 13.º take deu certo. É curioso ver a dupla de diretores no set. Durante boa parte do tempo - dos 13 takes -, Sandra fica junto ao monitor enquanto Mauro conversa com os atores e os técnicos.

Isso pode induzir a pensar que ele se ocupa dos atores e Sandra, da técnica. Mas daqui a pouco Sandra está com ele no meio da equipe. "A gente escolheu as locações juntos, ensaiamos os atores e preparamos uma decupagem. Na hora, cada um sabe como será, mas as coisas são dinâmicas e a gente está sempre trocando ideias para melhorar a cena", diz Sandra. Mauro e ela filmam durante duas semanas para aproveitar a brecha nas agendas de Andréa e Daniel Dantas. Depois, ela volta à TV, ele faz teatro e a filmagem só recomeça em outubro, para mais duas semanas. Sandra ainda não sabe se vai poder contar com Tony Ramos. "Espero que sim, a parte está escrita." Andréa está adorando. "Fiz o primeiro filme há 19 anos, quando meu filho nasceu. Luiza, como eu, não é mais a mesma. "A estreia, ainda sem data, será no primeiro semestre de 2015.

Primeiro filme ajudou a devolver público às salas

Como sua sequência, o primeiro Pequeno Dicionário Amoroso teve de ser feito em duas etapas, porque a filmagem foi interrompida pela gravidez da atriz Andréa Beltrão. Lançado em 1996, no começo da chamada 'Retomada', o filme fez 402 mil espectadores e foi importante num momento em que, após todas as dificuldades da era Collor, o cinema brasileiro reconquistava o público.

No Festival de Brasília, o longa recebeu dois prêmios - dois Candangos. Melhor fotografia - e Walter Carvalho depois iria codirigir Cazuza com a diretoria Sandra Werneck - e melhor montagem, para Virginia Flores.

A originalidade do primeiro filme não estava exatamente na love story, mas no dicionário criado pelos amigos dos protagonistas para, de A a Z, listar tudo aquilo que faz do amor algo tão necessário, e importante.

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