"Anatomia de um Crime" sai em DVD

É um enigma insolúvel. Otto Preminger era um dos grandes diretores de Hollywood e, de repente, no espaço de um ou dois filmes, despencou, iniciando uma das mais vertiginosas decadências da história do cinema. Como explicar o processo que levou o artista que dava lições de direção em Exodus a assinar obras tão constrangedoras quanto Skidoo se Faz a Dois e Setembro Negro (Rosebud)? Quando Preminger morreu, em 1986, aos 80 anos, os críticos tinham de se esquecer do presente e se lembrar apenas do seu passado glorioso. Um dos momentos importantes desse passado está saindo em DVD da Columbia. É Anatomia de um Crime.Trailer, publicidade da época, notas sobre o diretor e o elenco - o disco digital traz tudo a que o público tem direito, além das tradicionais escolha de legendas e seleção de cenas. Imagem e áudio foram remasterizados digitalmente, o que garante uma qualidade da fotografia e do som imbatível (principalmente se comparada à versão de vídeo). Chega? Tem mais. Uma fotomontagem chamada A Anatomia de um Clássico reconstitui o processo de criação do filme, com ênfase para a trilha de Duke Ellington. Na época, fim dos anos 50, Hollywood estava flertando com o jazz e, só para lembrar outro exemplo, Robert Wise recorreu ao jazz da costa oeste para embalar um de seus raros clássicos que resistiram ao desgaste do tempo - Quero Viver!Cinema e jazz - O próprio Preminger havia provocado a fusão em O Homem do Braço de Ouro, mas, como os especialistas não se cansam de nos lembrar, o que o compositor Elmer Bernstein fez para ele foi envernizar a obra filmada com temas jazzísticos. O jazz só foi incorporado como suporte dramático ao filme por Wise em Quero Viver! e por Louis Malle (que recorreu a Miles Davis) em Ascensor para o Cadafalso. Tudo isso, claro, antes que Clint Eastwood ressuscitasse o lendário Charlie Parker em Bird. O jazz é o plus de Anatomia de um Crime, mas o filme independe dele para ser, até hoje, o maior drama de tribunal da história do cinema. Você viu muitos filmes sobre julgamentos. Nenhum como esse.Em 1959, Anatomia de um Crime provocou sensação porque Preminger recorria a um vocabulário muito franco, até mesmo chulo, para contar sua história que gira em torno de um estupro. Foi nesse filme que se ouviu, pela primeira vez, em Hollywood, a palavra "esperma". Era uma ousadia, na época, e Preminger vinha de várias outras ao longo dos anos 50, o que criou para ele a fama de autor corajoso, que afrontou (e enfrentou) os códigos de censura do cinema americano para ajudar a transformar o cinema numa arte mais adulta. Durante muito tempo, críticos tentaram denegrir o grande Otto dizendo que era só um marqueteiro da própria coragem. Não era. Hoje em dia, quando o linguajar de Anatomia de um Crime não surpreende nem escandaliza mais, o que salta aos olhos é a lucidez, além da elegância, da mise-en-scène.Na história, James Stewart é o advogado que defende tenente acusado de matar o dono de um bar. Acusado, simplesmente não. Ben Gazzara assume que matou e a justificativa é que a vítima teria estuprado sua mulher (Lee Remick). Só que as coisas não são bem assim. O advogado Stewart faz descobertas surpreendentes ao longo do processo. Descobre que talvez tenha sido usado. Gazzara não é nenhum anjo e Lee, com certeza, não é a dona de casa ilibada que ele tenta fazer crer aos jurados. George C. Scott faz o promotor.E o que Preminger faz, nesse filme admirável, é suprimir as certezas do espectador, fazendo com que Anatomia de um Crime se desenrole num clima de permanente dubiedade. Nem por isso Preminger, que Jean-Luc Godard e François Truffaut, em seus tempos de críticos, gostavam de chamar de cineasta "ético", deixa de emitir sua opinião sobre os personagens e as situações que filma. Uma certa lata de lixo, estrategicamente colocada no desfecho de Anatomia de um Crime, tem valor de crítica, senão de julgamento moral. O filme honra sua fama de clássico. E fica melhor com o jazz de Duke Ellington, que aparece na cena do dueto com Stewart, no bar.Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder) - EUA, 1959. Direção de Otto Preminger, com James Stewart. Columbia. P&B, 160 min. Nas lojas, por R$ 35/R$ 45.

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