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Análise: 'Z - A Cidade Perdida' retrata a busca da cidade perdida como um caso de obsessão

Longa narra a aventura quase mística do coronel Percy Fawcett

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2017 | 07h00

O que faz um diretor como James Gray, conhecido por suas histórias intimistas, testar-se num gênero de aventura como este Z - A Cidade Perdida? A pergunta pode partir de quem não acredita na comunicação entre modalidades cinematográficas. Mas isso existe, de tal forma que Gray dá à aventura amazônica do coronel Percy Fawcett um tom intimista e metafísico. 

Na verdade, retrata a busca da cidade perdida como um caso de obsessão. Fawcett é visto desde o início como alguém que precisa “resgatar seu nome”. Numa curiosa conversa entre nobres ingleses de nariz empinado (pleonasmo) é descrito como “alguém que não soube escolher seus ancestrais”. A frase corta como lâmina afiada da superioridade de classe. Significa que os filhos pagam pelos pais e ninguém vê nisso qualquer anormalidade. Nem mesmo Fawcett, consciente de que apenas uma façanha poderá redimir a nódoa paterna e abrir-lhe as portas da sociedade, sem restrições.

Daí que aceita, sem pestanejar, a primeira missão sul-americana, traçar os mapas de fronteira entre Bolívia e Brasil. A cartografia era vital para a expansão do Império Britânico - daí o prestígio da Royal Geographical Society, instituição de grande peso na Inglaterra vitoriana.

De qualquer forma, vencida a primeira barreira, o aventureiro Fawcett quer mais. Como em suas andanças ouviu falar de uma cidade perdida, devota-se a encontrá-la. Esse feito seria não apenas o resgate do seu nome, mas a construção de um prestígio a ser legado às próximas gerações. Destemido, implacável e ambicioso, Fawcett não vê limites diante de si. E é retratado por Gray com a marca dos aventureiros de verdade: nenhuma dúvida lhe passa pelo espírito a respeito da veracidade da lenda da cidade perdida. Ele tem certeza de que ela existe e está em algum lugar da selva, à espera de alguém de valor que a descubra. 

Esses são os ingredientes da aventura, mas Gray os trabalha de maneira delicada, intimista. Embora atento às drásticas condições das expedições chefiadas por Fawcett, busca mais o interior dos personagens, como reagem ao sofrimento e à esperança, quando desistem e quando se determinam a seguir adiante, aconteça o que for. As filmagens na floresta, sempre difíceis, são bonitas. Mas não existe aqui a busca de uma estética vazia, meramente decorativa. A beleza natural, captada por uma fotografia nada banal, põe-se a serviço de outra sensação, inquietante, aquela que mostra a ambivalência da selva inexplorada, quando o paraíso tropical pode se tornar perigosamente vizinho do inferno. 

Há paraíso e inferno. E outra ainda, na obstinação do homem, e que supera seu plano de ascensão social: o desejo de contato com algum absoluto, com algo que ninguém teve ou viu. Fawcett era movido por esse fanatismo, talvez de fundo religioso. 

 

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