Danny Moloshok/Reuters
Danny Moloshok/Reuters

Análise: Wes Anderson acerta em cheio em 'Ilha de Cachorros'

Animação une técnica de fábula a cenário distópico futurista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2018 | 06h00

Difícil não apreciar a inteligência e o refinamento plástico das comédias de Wes Anderson. Essas qualidades se traduzem numa assinatura que identifica a autoria de Os Excêntricos Tenenbaums, Viagem a Darjeeling e Moonrise Kingdom. Mas algo se passou com O Grande Hotel Budapeste, e dessa vez o resultado foi superlativo. Humor, inteligência e algo mais. Não foi por acaso que o filme, um verdadeiro prazer para os olhos, venceu os principais Oscars técnico-artísticos do ano – melhor trilha original, direção de arte, figurinos, maquiagem e adereços.

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Também havia originalidade na animação stop motion anterior de Anderson, O Fantástico Sr. Raposo. O problema, se é que se pode dizer assim, é que Roald Dahl escreveu uma fábula infantil e Anderson, ao adaptá-lo, fez seu filme, astutamente, para o público adulto. Algo também se passa agora com Ilha dos Cachorros. A nova animação stop motion de Anderson – que já foi adaptada para mangá no Japão – possui as qualidades tradicionais de beleza, eficiência e elegância do autor, mais, e isso é muito importante, leveza e universalidade. Ilha dos Cachorros é uma delícia.

Os elogios começaram a ser derramados em fevereiro, quando o filme abriu o Festival de Berlim. Anderson já mostrara outros filmes na Berlinale, incluindo o premiado, em Berlim também, Hotel Budapeste. Anderson viaja agora ao Japão e, com a cumplicidade inspirada do corroteirista Kunichi Nomura, propõe uma fábula canina de múltiplos significados. A história começa numa era definida como ‘antes da idade da obediência’, quando os cães viviam selvagens, depois tornaram-se melhores amigos dos homens, mas tudo isso foi antes que a contagiosa febre gripal, que acometeu os cães e os dizimou, ameaçasse dizimar os humanos, também.

Dublado pelo roteirista Nomura – e modelado no mítico astro dos filmes de Akira Kurosawa nos anos 1950 e princípio dos 60, Toshiro Mifune –, o prefeito Kobayashi bane todos os cães, tanto os domésticos, como o dele, até os vira-latas, que vivem na rua – para uma ilha que também serve como depósito de lixo. Os cães, se já estavam doentes, ficam sarnentos e, ao se reproduzir, enfraquecem cada vez mais. A situação é caótica, numa paisagem desolada – pós-apocalíptica? – que lembra a da série Mad Max. É nesse quadro que chega um garoto, enteado do prefeito, em busca de seu cão.

Ele não apenas vai desmontar a farsa do padrasto de que os cães são inimigos dos homens como vai impedir sua destruição, por meio de um vírus poderoso. Como em qualquer narrativa ‘clássica’, o garoto vai recolocar ordem no mundo e reintegrar os cachorros. É claro que, nesse processo, ele terá aliados entre os próprios caninos, incluindo um tal ‘Chefe’ (vagabundo?), dublado por Bryan Cranston – leia entrevista –, que encontra a sua ‘dama’, e ela é dublada por Scarlett Johansson. Os diálogos dos dois são ríspidos. “Eu não sou de latir; mordo”, diz o insolente Chefe.

Hollywood tem construído belas fábulas para exaltar o direito à diferença num mundo ameaçado pela intransigência. Agora mesmo, está em cartaz o ótimo Hotel Transilvânia 3, que prova que sequências podem ser criativas e engraçadas. Por toda cidade – por todo o País – estão espalhados os outdoors em que o cãozarrão lambe o neto de ‘Drac’. Esse mesmo reconhecimento do outro está em Ilha dos Cachorros, mas, dessa vez, a despeito de ser uma fantasia, o tom é mais grave, o diálogo mais realista e a própria stop motion, com suas pausas, confere uma solenidade (filosófica?) ao que está sendo discutido. O encanto maior, porém, vem da própria história. É um filme cheio de calor e humanidade. De novo, Anderson acertou – em cheio. Seus fãs vão adorar saber que, na sexta, haverá um Noitão a ele dedicado, no Belas Artes, com Tenenbaums, Sr. Raposo, Hotel Budapeste, mais um filme surpresa.

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