Foto: SONY DSC
Foto: SONY DSC

Análise: 'Vermelho Russo' tem dueto encantador de atrizes em um filme em estado de graça

Seguidas pela câmera leve de Braun, Maria Manoella e Martha Nowill interpretam como se fosse pela primeira vez, ou, pelo menos, assim parece ao espectador

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

06 de maio de 2017 | 03h00

O ator italiano Vittorio Gassman dizia que deveria haver pelo menos duas vidas – uma para ensaiar e outra para representar. Sem chegar a esse sonho metafísico do grande ator italiano, as atrizes brasileiras Maria Manoella e Martha Nowill tiveram oportunidade de viver três vezes experiência semelhante. A primeira foi quando foram à Rússia estudar o método Stanislavski. A segunda, quando Martha Nowill escreveu e publicou o diário contando a viagem na revista Piauí. A terceira quando filmaram uma versão do diário, agora sob direção de Charly Braun. Essa última camada de palimpsesto é o que vemos em Vermelho Russo.

Duas moças em viagem a um país distante, o desconhecimento do idioma, as peripécias de encontrar uma morada, a neve, os estudos. O espírito “viajante” em suma, em oposição à trajetória mais planejada do turista convencional, que busca o diferente, mas sem abdicar do conforto do mesmo. Alguns lances adicionais de metalinguagem com o personagem que filma obsessivamente tudo e faz as vezes do diretor.

Eis aí a experiência (re)vivida, escrita e reencenada, portanto, o que levaria ao risco de certo engessamento pela reiteração depurada do já acontecido. Mas não. Seguidas pela câmera leve de Braun, as duas atrizes a reinterpretam como se fosse pela primeira vez, ou, pelo menos, assim parece ao espectador. Há espontaneidade nesse documentário ficcional sobre algo sentido e meditado.

Também há o lado do relacionamento entre duas moças que viajam sozinhas e moram juntas num país estrangeiro. O filme realça a amizade, mas não deixa de lado conflitos, rivalidades e brigas. Cabe ao espectador se perguntar – se isso tiver importância – se tudo aconteceu ou foi inventado. E qual a diferença, em uma ficção? Ou nesse documentário ficcional de uma experiência real acontecida?

Que inclui, claro, a encenação dentro da encenação quando elas se põem a ensaiar, como parte do curso, peças de Anton Chekhov. Várias vezes dita, a mesma cena serve para mostrar ao espectador algo dessa magia técnica que é o teatro. Sempre repetida, nunca a mesma, de repente, sem que se saiba exatamente por que, uma sequência sai diferente das outras e provoca emoção. Uma delas consegue produzir isso; a outra, nem tanto. Aconteceu como o previsto no filme, ou também foi improvisado?

Dessas dúvidas, jamais solucionadas, é feito o encanto dessa experiência lúcida e lúdica que é Vermelho Russo. Uma graça de filme e, às vezes, um filme em estado de graça. Em especial pelas atrizes, que formam um encantador dueto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.