Análise: vale a pena tentar criar um limite para blockbusters

Ancine e agentes do mercado se unem para evitar a asfixia criada pelos grandes lançamentos e buscam estratégia francesa

Paulo Sergio Almeida*, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2014 | 03h03

Há uma forte tendência entre as grandes distribuidoras americanas de concentrar os orçamentos em poucos títulos com força suficiente para conseguirem grandes audiências em todos os mercados do mundo. A nova estratégia começou logo após a crise econômica de 2012 com vistas à redução de riscos, usando investimentos já feitos em franquias em contratos de gaveta, visando também à recuperação dos investimentos feitos na década passada na expansão dos multiplex em escala mundial. Hoje, a amortização da produção do filme norte-americano, cada vez mais caro, se faz de uma maneira inversa ao que acontecia há dez anos. Hoje, os filmes recuperam 70% de seu custo no mercado internacional.

Países que tiveram grandes investimentos dos operadores estrangeiros, como o Brasil, conseguiram expandir seu mercado e recebem de volta o valor da conta. Seja pelo perigo da pirataria, do fim do mercado de DVD, pelo crescimento do VOD (video on demand). Trata-se do método do pescador: jogar a maior rede e recolhê-la o mais rápido possível.

No Brasil, a tendência ficou muito clara quando vários lançamentos foram antecipados e concentrados no início de 2014 para fugir da competição da Copa e eleições. Foi um filme atrás do outro, com uma grande ocupação de salas. Briga de cachorro grande. Mas, como disse um dos grandes operadores da exibição, "o pior ou o melhor de tudo é que deu certo".

Se foi bom para o blockbuster e para o mercado em geral, é preciso saber: quem perdeu - se é que perdeu e por quê. Num país no qual a grande maioria dos complexos de salas multiplex tem entre 5 e 8 salas, fica apertado entrar se seu produto não for um blockbuster. Por outro lado, é predatório porque esta prática é contra o espírito de transbordamento do conceito multiplex. É preciso cuidado com as falsas bandeiras.

Diante dos fracos números do filme nacional do ano, argumenta-se a ausência de espaço para eles. Sinceramente, não vi nenhum lançamento brasileiro prejudicado por este fato novo. Alguns até cresceram em escala - mais do que deveriam - mas seus resultados não reagiram a esse crescimento. Também seria importante saber se 2014 foi atípico ou se a prática será rotineira. Acredito que 2015 será um ano de blockbusters ainda mais potentes, inclusive alguns nacionais. Alguma coisa deve ser feita em busca do bom senso.

A Ancine propõe limitar, num porcentual de cerca de 30%, a ocupação de complexos de mais de 5 salas. Tem distribuidor dizendo que, se isto acontecer, os blockbuster vão ficar mais tempo em cartaz e ocupando mais salas; os exibidores ficam no meio termo entre uma programação mais saudável e o arrasa-quarteirão; os advogados falam que o caso é inconstitucional. Mas quem sabe o que é inconstitucional, na realidade? Muitas vezes nem o Supremo. O que pode acontecer é a Ancine usar uma cota de tela mais rígida como punição. Será? De novo o contencioso de tratar o exibidor como inimigo e o filme brasileiro como penalidade?

Ninguém gosta de interferências no seu negócio, mas o mercado deve ser para todos. O melhor argumento para não se fazer nada é dizer que o caso é complicado. Gostaria de ver um novo modelo, em 2015, mas, como teste e com chance de mudar, sem a força da lei. Temos de encontrar uma convivência entre grandes, médios e pequenos.

* cineasta e diretor do site Filme B

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