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Análise: 'Travessia' é um bom exemplar da terceira via

E a cidade como personagem

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2017 | 04h00

Na entrevista que deu ao Estado, Chico Diaz, grande ator e pintor nas horas vagas – está com uma exposição no Rio e a crítica não o tem tratado como diletante das tintas e cores, mas como o verdadeiro artista que é –, lembrou que antes de tudo isso estudou arquitetura e que o filme de João Gabriel lhe parecia muito bacana justamente por isso. Travessia é sobre pai e filho em litígio por causa de uma herança.

Não se falam, exceto alguma tentativa por telefone e, dessa maneira, não dividem o quadro – o plano. Mas moram na mesma cidade e Salvador vira personagem importante de Travessia. O diretor João Gabriel não filma a Salvador de cartão-postal, mas uma cidade que tem mar, túneis, viadutos, um trânsito caótico. O final – olha o spoiler! – confronta o personagem com uma via que se abre para muitos túneis. Se o espaço não existisse, teria de ser inventado. Aquela imagem carrega uma metáfora que resume o filme todo.

Travessia é sobre gente dividida. O pai bebe, o filho se envolve com drogas sintéticas. Numa noite longa, o filho se acaba numa boate e o pai bêbado, na direção do carro, comete um atropelamento, tudo mostrado em paralelo. O caso tem desdobramentos. A vítima é um garoto de rua, e Chico Diaz de alguma forma se compromete com ele. No hospital, inicia uma relação com a enfermeira. O filho também tem sua mulher, e ao se envolver no tráfico termina por arrastá-la para uma situação de violência.

O filme tem sido descartado por boa parte da crítica porque seria dividido como os personagens. A grande reclamação é que João Gabriel não se decide entre relato policial e drama intimista, como se ambas as coisas não pudessem coexistir. Coexistem no filme dele. Não é preciso escolher, e talvez o interessante seja tentar ver Travessia por outro ângulo. Já faz algum tempo houve na França um debate sobre o que lá se chamou de ‘filme du milieu’, do meio. No Brasil também existem os blockbusters, geralmente comédias, e os filmes de autor, miúras. Faltam os filmes do meio, a terceira via. Travessia pode ser um deles. O compromisso é com o desenho dos personagens, mas a paisagem humana exige o contraponto geográfico para se completar. Chico Diaz é sempre ótimo. Caio Castro, o galã da vez – na Globo –, não tropeça no personagem difícil. E o papel ainda tem direito a cena de sexo com nudez parcial.

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