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Análise: 'Trago Comigo' põe responsabilidade e culpa em discussão

Longa aborda pontos cruciais, tais como o desgaste do sentido de uma luta para as gerações mais jovens

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2016 | 05h00

Memórias de situações-limite podem ser gloriosas ou tenebrosas. Em geral, mesclam esses dois aspectos, como duas linhas que, entrelaçadas, formam um único fio, como o bem e o mal naquele genial conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo. Em Trago Comigo, a memória dos chamados “anos de chumbo” é, mais uma vez, tema de Tata Amaral, que já o abordou em Hoje, relato ficcional sobre a época da ditadura.

Aqui, Tata vale-se de uma forma híbrida, e de grande poder dramatúrgico, diga-se. Existe uma trama de ficção, com o diretor de teatro Telmo (Carlos Alberto Riccelli) relembrando seus tempos de militância política, da prisão e da tortura, e colocando esses sentimentos numa peça de teatro a ser encenada. Por outro, há os depoimentos dos militantes da vida real. Gente que lutou contra a ditadura, e sofreu na pele (de modo literal) toda a brutalidade do regime. Digamos assim: o poder desses depoimentos, sua carga de verdade (e não estou usando a palavra em vão) imanta a peça ficcional que corre em paralelo.

Mas esta, a ficção, é a espinha dorsal do filme. O roteiro, de Thiago Dottori, deu origem à minissérie em quatro capítulos da TV Cultura, apresentado em 2009. Revive, agora, como longa-metragem, de forma talvez ainda mais aguda em 2016. De lá para cá, houve uma revivescência da memória da ditadura, talvez forçada pelos acontecimentos políticos contemporâneos, com a chegada de uma ex-guerrilheira à presidência da República em 2010, sua reeleição em 2014, a instauração da Comissão da Verdade para apurar crimes do período, e o posterior afastamento da presidente. De maneira confusa, intuímos que o ovo do caos político atual foi incubado lá atrás. Por isso, queremos saber. Pois saber nos dá a sensação, talvez ilusória, de que podemos controlar o caminho e encontrar algo melhor mais adiante.

Da mesma forma que Telmo, o personagem vivido por Riccelli, também quer saber o que aconteceu em sua história de vida, e num episódio em particular que o atormenta, envolvendo uma mulher chamada Lia. Por que ela compareceu a um “ponto” (local de encontro marcado entre guerrilheiros) e não outra pessoa, conforme estava combinado? Essa dúvida o corrói, pois, de alguma maneira, sente-se responsável pela morte da companheira.

Esse é um subtema crucial da história – qual o grau de responsabilidade envolvida quando se “entrega” um companheiro sob tortura? Vamos pesar as palavras. Não se trata de “delação”, ainda menos sob a forma notória atual, a tal da “delação premiada”, em que um criminoso dedura outros, supostos implicados em troca da redução da pena. Naqueles tempos, a coisa era outra. Os torturadores exigiam nomes, datas e endereços com instrumentos que iam do choque elétrico ao pau de arara e à cadeira do dragão. Os militantes eram apenas instruídos a aguentar o máximo possível para que houvesse tempo de desativar pontos e “aparelhos”. Mesmo assim, o sentimento de responsabilidade e culpa atormenta antigos militantes.

Trago Comigo ainda aborda pontos cruciais, tais como o desgaste do sentido de uma luta para as gerações mais jovens. E há um lance bonito quando este gap geracional é superado através do diálogo. Por incompletas e falsas que sejam, a memória e a palavra são tudo o que temos.

 

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