Alfred Hitchcock
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Análise: Temas psicanalíticos banham a obra de Alfred Hitchcock

A própria origem de Hitchcock, um católico atormentado pela culpa e pela ideia do pecado, fazia adivinhar o background 'psicanalítico'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2018 | 06h00

Bibliotecas inteiras foram escritas para estudar a influência da psicanálise sobre a arte. Colocando em evidência a força do inconsciente, Freud abriu caminho para a importância da imaginação em nossa vida psíquica. E, portanto, fascinava os artistas. Como se sabe, os surrealistas foram os primeiros a ficar encantados. Logo se declararam discípulos da psicanálise. Freud, que tinha mentalidade científica, ficou meio de pé atrás com essas declarações de amizade. Mas, depois de várias tentativas de Salvador Dalí, acabou cedendo e posou para um desenho.

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Encantava os surrealistas acima de tudo a importância concedida aos sonhos, como a “via régia” que conduzia ao inconsciente. A definição está no mais importante dos livros de Freud, A Interpretação dos Sonhos, datado de 1900. De modo que, quando Alfred Hitchcock resolveu colocar uma sequência de sonhos em Spellbound (Quando Fala o Coração), recorreu a Dalí (Havia pensado também em Giorgio De Chirico). Dalí forneceu ao cineasta 20 fulgurantes minutos de imagens oníricas, dos quais apenas três minutos foram aproveitados.

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A própria origem de Hitchcock, um católico atormentado pela culpa e pela ideia do pecado, fazia adivinhar o background “psicanalítico” que impregnaria quase toda a sua obra. Desejo, culpa, medo da castração, complexo de Édipo - são alguns dos temas facilmente detectáveis na obra do mestre.

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Basta pensar em alguns dos seus títulos mais conhecidos. Por exemplo, a relação simbiótica com a mãe em Psicose por parte do hoteleiro Norman Bates. Slajov Zizek, filósofo e psicanalista lacaniano esloveno, estabelece interessante leitura do filme. O Bates Motel, edificado em três andares, representaria os três níveis da mente. No primeiro, Norman atende os hóspedes. O segundo é um estado de passagem e o terceiro, residência da “Mãe”, é o nível do inconsciente. Seria a representação do psiquismo proposta por Freud como dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente. As ideias reprimidas “residem” fechadas neste último andar e, quando descem, é aquele estrago.

Esse aspecto da obra de Hitchcock não deixou de chamar a atenção de outros estudiosos. O francês Raymond Bellour escreveu um ensaio famoso sobre Intriga Internacional, aparentemente o menos propício dos filmes do mestre a se prestar a esse tipo de interpretação, por se tratar de história de aventura e ser considerada uma das obras menores em sua filmografia.

No entanto, analisando tanto temas como a mise-en-scène, vendo o conjunto como os detalhes em sua minúcia, Bellour capta nas entrelinhas temas maiores da psicanálise como o Édipo e a Lei do Pai. Aliás, Intriga Internacional tem aquela sequência em que o trem entra no túnel e não precisa de qualquer arte psicanalítica para desvendar sua alusão sexual.

Os dois maiores filmes de Hitchcock estão também impregnados de temas psicanalíticos. O voyeurismo - a compulsão de olhar - dá o mote de Janela Indiscreta. E o desejo, aprisionado na imagem de uma mulher morta, determina a grandeza de Um Corpo Que Cai. Quando John Fergusson (James Stewart) perde a mulher amada (Kim Novak), busca obsessivamente reencontrá-la, nem que seja em um simulacro. 50 anos de divã não o livrariam da soberba imagem de Madeleine. 

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