Divulgação
Divulgação

Análise: Tarzan é o ambivalente herói anglo-saxão criado entre macacos

Viril, violento, racista, ele é também um tipo que aprende rápido as regras da sociedade em que seus ancestrais viveram

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2016 | 06h00

Não admira que o novo filme de Tarzan comece em Londres e termine na selva. Há no mundo “civilizado” uma febre regressiva, tribalista, que ecoa o grito primal do rei dos macacos. Mais que isso: um desejo inconsciente do triunfo do primitivo, como no história original de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), Tarzan dos Macacos (Tarzan of the Apes, 1912), que deu origem a duas dúzias de volumes nem sempre geniais, mas transparentes, sobre a ambivalente posição de Burroughs a respeito da civilização.

Por ter sido criado e passado a vida toda entre macacos, Tarzan conserva, claro, traços de um “incivilizado” - e, portanto, de um sujeito viril e pouco amistoso, segundo a lógica de Burroughs, que carrega no racismo do órfão aristocrata inglês. Por razões pouco claras, ele é afável com os macacos, mas age com violência contra os negros africanos, que vê como inimigos. Caucasianos são promovidos à categoria de dominadores naturais. A “civilização” está em suas mãos. A propósito: Tarzan, na língua dos mangani, os grandes macacos criados por Burroughs, quer dizer “pele branca”. Os negros africanos, vistos como inferiores por Tarzan, descem à condição de suspeitos, traiçoeiros.

No livro original, Burroughs sente-se na obrigação de resolver esse paradoxo. Como um aristocrata de sangue azul, o anglo-saxão perfeito, pode ser também o exemplo máximo do atleta viril, selvagem e racista, que cultiva suas paixões sem culpa, rejeitando aquilo que a sociedade dos brancos lhe oferece? Burroughs resolve esse dilema fazendo com que Tarzan evolua e venha a entender que nem toda a violência é justificável - assim, ele deixa de implicar com toda a raça negra, ainda que trucide um ou outro africano, obedecendo à lógica interna dessa obra serialista.

A supremacia anglo-saxônica parece não se ajustar ao desejo carnal, à paixão física, de um Tarzan simiesco. O mundo civilizado é feminino demais segundo a lógica de Burroughs - por essa razão, Tarzan encontra mais ressonância entre o público masculino, identificado com o macho voluntarioso. Jane, antes de ceder, recusa a oferta de casamento de Tarzan no fim do livro seminal de Burroughs, justamente porque a versão civilizada do “homem macaco” lhe parece pouco interessante (ou viril, quem sabe).

Entre um selvagem com ligeiras noções de ética e um lorde consciente do seu direito à propriedade, Jane fica com os dois, tentando se adaptar à lei da selva, onde o mais forte tem a última palavra. Burroughs criaria ainda outro herói deslocado de seu meio: John Carter, herói da Guerra Civil Americana abduzido por marcianos. Não por coincidência, inventado em 1912, ano em que nasceu Tarzan numa revista pulp.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.