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Análise: 'Safári' deve ser visto, mas não espere prazer

Filme de Ulrich Seidl faz uma incômoda anatomia de seus personagens - pessoas reais que pagam fortunas para matar animais na África

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2018 | 06h00

A certa altura de Safári, o dono de um campo de caça na África põe-se a fazer reflexões. Todos os seres vivos ocupam lugar demais no espaço limitado do planeta, filosofa. Em especial, o ser humano. “Se desaparecêssemos, seria um grande alívio para a natureza.” Nesse ponto, somos obrigados a lhe dar razão. Se formos medir a humanidade pelos personagens do filme, melhor seria mesmo que a espécie humana fosse varrida não só desse grão de areia que é a Terra, mas do vasto universo. E para todo o sempre. Quem são esses personagens que aparecem em Safári, nova obra de Ulrich Seidl? Caçadores austríacos. Homens e mulheres ricos, que podem se oferecer rifles de alta tecnologia, com mira telescópica e grosso calibre. Podem também participar de safáris em países pobres, que oferecem em troco dos euros animais selvagens para serem abatidos.

Aliás, uma das primeiras cenas mostra um casal já da “melhor idade” discutindo a tabela de preço dos bichos oferecidos e hesitando sobre o melhor custo-benefício da aquisição. O filme alterna essas conversas ou depoimentos encenados para a câmera às cenas de caçada propriamente ditas. Nestas, vemos os heróis em ação. Assessorados por profissionais do parque, colocam os fuzis em tripés e se esmeram em tiros que chamam de “limpos”. Aqueles que abatem os alvos em menos tempo e com um mínimo de estrago na pele que, afinal, será o troféu a ser levado para casa. Depois de consumada a morte, o caçador posa ao lado da vítima, arma repousada para a inevitável foto a ser levada como souvenir.

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Há, ainda um terceiro plano narrativo, quando os animais caçados são estripados para se transformar em troféus para decorar as casas dos caçadores. As cenas aqui são particularmente cruas e Seidl é daqueles diretores que não nos poupam qualquer detalhe. Pelo contrário, o público é submetido a uma verdadeira aula de anatomia animal conduzida pelos pobres nativos que sobrevivem fazendo aquele trabalho. A operação praticada no cadáver de uma girafa é particularmente espantosa.

Outro dia se falava em Jean Rouch (de Eu, Um Negro e Crônica de Um Verão), que conseguia tirar o melhor dos seus personagens. Seidl é o contrário: busca o pior. Amparado num realismo cru, e numa indefinição política muito convicta, instala-se em plano superior: nunca se sabe se está criticando o que mostra ou se apenas goza com a torpeza alheia. O filme produz esses sentimentos contraditórios. Safári é como outros dirigidos por ele, como Import/Export ou a trilogia Paraíso (Amor, , Esperança). O primeiro fala das misérias da imigração. Os outros são paradoxos: tudo que neles se vê diz o contrário dos sentimentos positivos expressos nos títulos.

Os filmes de Seidl têm o poder encantatório de obras construídas com o máximo rigor. Planos fixos, fotografia que nada esconde. É um cinema impecável, implacável, e despido de qualquer ternura humana. Frio como bloco de gelo. Incômodo. Deve ser visto. Mas não espere prazer.

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