JOBA MIGLIORIN/TOKYO FILMES
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Análise: 'Rifle' é um tiro certeiro sobre a corrosão de um modo de vida

O grande mérito de Davi Pretto é construir uma narrativa rarefeita e eficaz

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 06h00

À sua maneira, Rifle, de Davi Pretto, fala da inexorável expansão do capital e suas consequências sobre as vidas dos mais fracos. 

O personagem principal é Dione, ator natural, em seu primeiro trabalho no cinema. É vivido por Dione Ávila de Azevedo. Esse é princípio do diretor, manter o prenome dos integrantes do seu elenco, e se repete com Andressa, Evaristo e quase todos os personagens. 

Dione vive em uma pequena fazenda. Mas um poderoso proprietário deseja comprar as terras das redondezas para expandir seu plantio de soja. O agronegócio não brinca em serviço e entra de sola, como sabemos. Uma a uma as pequenas propriedades são vendidas por agricultores conformados, que receberão um dinheirinho e engrossarão a população das periferias das grandes cidades. 

Já Dione é um resistente. Apegou-se à terra e lá quer ficar. É um indivíduo contra um sistema que avança e engolfa o que vê pela frente. O rifle, que dá título ao filme, passa a ser uma extensão do corpo. E expressão de uma mente, talvez confusa, porém inconformada. 

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O grande mérito de Davi Pretto (autor do também muito bom Castanha) é construir uma narrativa rarefeita e eficaz. Aproveita-se da vastidão dos grandes espaços rurais para criar uma sensação de isolamento e solidão. Os personagens são lacônicos. Dizem apenas o essencial. Os significados filtram-se pelas entrelinhas. O homem do campo vai direto ao ponto. Mas nem sempre em linha reta. Como certos disparos, o alvo tem de ser atingido na tangente.

O que está em pauta é algo bem concreto, porém em via de dissolução – a identidade sulista do homem do campo, do “gaúcho” fronteiriço, orgulhoso, dono de si e de seu destino. Rifle mira na corrosão de um modo de vida (e de uma psicologia e cultura próprias) pelo avanço do capital. Tiro certeiro. 

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