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Análise: Quem viu Monica Vitti nas telas não a esquecerá jamais

Morta aos 90 anos, a atriz, musa de Michelangelo Antonioni, ajudou a forjar a imagem da mulher moderna

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S; Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 11h59
Atualizado 02 de fevereiro de 2022 | 13h42

Morreu Monica Vitti. Depois de mais de 20 anos fora de cena (sofria do Mal de Alzheimer), a diva do cinema italiano se foi de vez, aos 90 anos. Quem a viu nas telas, em especial nos filmes de Michelangelo Antonioni, não a esquecerá jamais. 

Lembremos, por exemplo, de A Aventura (1960). Inexplicavelmente, uma personagem (Lea Massari) some durante um passeio de barco a uma ilha. Procuram-na e ela não aparece. Um novo par se forma, Claudia (Monica Vitti) substituindo a mulher desaparecida no afeto de Sandro (Gabrielle Ferzetti). 

Foi uma aparição fulgurante na tela. Monica conta que a ideia do filme surgiu de um arrufo normal de casal. Ela briga com Antonioni, com quem estava casada, e resolve sumir do mapa. Foram apenas umas duas horas de sumiço. Após a reconciliação, ouve do marido que o incidente lhe dera uma ideia. A ideia era A Aventura

Ela e Antonioni se conheceram em 1957. Ele tinha 45 anos e ela, 26. A moça já havia feito muitos filmes, em papeis pequenos e trabalhava muito em teatro. Mesmo assim era obrigada a fazer dublagens para completar o rendimento do mês, um trabalho muito comum para atores e atrizes na Itália, país que dubla todos os filmes. Antonioni havia lançado O Grito e estava no estúdio quando viu a moça loira, que chamou sua atenção. Aproximou-se dela e a cumprimentou: “A senhorita tem uma nuca muito bonita. Nunca pensou em fazer cinema?”.

Nos filmes seguintes de Antonioni, A Noite, O Eclipse e O Deserto Vermelho, Monica ajudaria, ao lado de outras atrizes (Harriet Andersson e Brigitte Bardot, por exemplo), a forjar a imagem da mulher moderna, que surgia entre as décadas de 1950 e 1960. Livre, independente, dona do seu corpo e de sua mente.

A obra-prima, daquilo que se convencionou chamar de “trilogia da incomunicabilidade” de Antonioni é O Eclipse (1962). Vittoria (Monica) termina um relacionamento e se envolve com um jovem operador da Bolsa de Valores, Piero (Alain Delon). Numa época de tensão pela ameaça nuclear, de profunda angústia existencial, o caso não pode ser lá muito ameno. E tudo termina num dos mais extraordinários finais da história do cinema, com um mundo se extinguindo - não num estrondo, mas num suspiro. 

O angustiante Deserto Vermelho é a última colaboração de Monica e Antonioni naqueles anos fevris. Casada e com um filho, ela faz Giulia, que convalesce de um acidente automobilístico. Nesse clima de depressão, conhece um amigo do esposo, Corrado (Richard Harris). Interpretando ao som de uma trilha sonora agônica, Monica é a própria imagem do desespero diante da sociedade industrial em que vive. 

Esses anos foram, por assim dizer, o esplendor autoral de Monica Vitti. De maneira geral, a crítica e os analistas de cinema dão atenção total ao diretor na análise de obras e períodos, deixando atores e atrizes em segundo plano. Talvez seja uma exacerbação da teoria do autor, lançada pelos franceses nos anos 1960, que colocava os cineastas em posição absoluta. No entanto, podemos pensar, o que seria dos filmes sem determinado ator ou atriz? Monica era um exemplo. Sem ela, os filmes de Antonioni não seriam os mesmos. Ela era uma dessas co-autoras fundamentais, com sua capacidade de exprimir a angústia exigida por aquelas obras-primas. 

Por paradoxo, Monica dá seguimento à sua carreira trabalhando sobretudo em comédias nos anos seguintes. Com a fama obtida durante os anos Antonioni, ela chega a rodar três filmes em um único ano. A qualidade é desigual. Com o mestre da comédia italiana, Mario Monicelli, faz A Moça com a Pistola (1967), em posição de protagonista, o que era uma novidade na Itália daqueles anos. Ela vive uma garota siciliana que não hesita em usar todos os meios (e armas) para se vingar do marido infiel. 

Trabalha com Ettore Scola (Drama do Ciúme, 1970) e com Luis Buñuel (Fantasma da Liberdade, 1974). Reaparece num telefilme de Antonioni, O Mistério de Oberwald, adaptação muito livre de A Águia de Duas Cabeças, de Cocteau, uma experiência pioneira no formato vídeo. 

Monica ainda se arriscou na direção, com a comédia inquietante Escândalo Secreto. Dirige mas também faz a protagonista, uma tradutora que ganha uma câmera de vídeo e resolve realizar gravações por conta própria, como um meio de conhecimento do mundo e de si mesma. Interpreta, mais uma vez, uma mulher moderna, encenando um ato de liberação final. Como se dissesse que, apesar da existência de tanta angústia, não é para levá-la tão a sério e devemos jogá-la pela janela. O filme estreou no Brasil em 1991. 

Escreveu ainda uma autobiografia, Sette Sottane (Sete Vestidos). No início dos anos 1990, ela passa a viver com Roberto Russo, diretor de dois dos seus filmes (Flerte, 1983, e Francesca é Minha, 1986), e co-roteirista de Escândalo Secreto. Com a doença, Monica afastou-se da vida social. Diz a lenda que saía ocasionalmente de manhãzinha para passeios pelas ruas de Roma, junto com o marido, que a acompanhou até o final. 

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