Análise: Prevaleceram os valores éticos e os bons sentimentos na cerimônia do Oscar

Análise: Prevaleceram os valores éticos e os bons sentimentos na cerimônia do Oscar

A Academia tem seus valores éticos e estéticos, que não são ousados, nem radicais, mas também não são desprezíveis

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 19h38

Foi uma premiação previsível, mas não no sentido pejorativo. O fato de os principais troféus terem ido para quem se esperava confirma certa coerência desse ser coletivo que é o colégio eleitoral da Academia de Hollywood. De vez em quando ela alucina. Por exemplo, premiando blockbusters que, apesar de sucessos de bilheteria, não deixam qualquer lastro para a história do cinema. 

Esse ser coletivo da Academia, por informe que pareça, é liberal, politicamente correto e preocupado com o futuro de sua atividade. Assim, vê com maus olhos atores sendo substituídos por máquinas e ideias cederem vez a efeitos especiais. Esse colégio é composto por atores, em sua maioria. De modo que enxergaram com benevolência a história de um antigo super-herói que deseja provar-se ator de verdade no teatro, encenando uma peça baseada em Raymond Carver. E foi desse jeito, e com a precisa mise-en-scène de Alejandro Iñárritu, que Birdman abriu caminho para a vitória. 

Isso não significa que os blockbuster estejam em segundo plano para sempre. Nada disso. A Academia é oscilante. E, representante de classe, mas também de uma indústria, não tem o sucesso como algo de indiferente. Por isso, talvez, um candidato como Sniper Americano tenha crescido nas cotações de última hora. Como o filme de Clint teve espetacular desempenho de bilheteria nos EUA, cogitou-se que poderia dar uma virada. Não aconteceu, provavelmente porque o tom militarista pode ter deixado muita gente com o pé atrás. 

Em vez de justificativas bélicas, privilegiou-se o humanismo criativo de Birdman, a graça de Grande Hotel Budapeste, o espírito de redenção de Whiplash. Embora a inovação de Boyhood tenha sido subvalorizada e o tema histórico importante de Selma tenha se encolhido em premiação secundária, o resultado foi coerente. A dignidade diante da adversidade foi valorizada em Para Sempre Alice (Julianne Moore, atriz), A Teoria de Tudo (Eddie Redmayne, ator) e O Jogo da Imitação (roteiro adaptado). A Academia tem seus valores éticos e estéticos. Não são ousados, nem radicais, mas também não são desprezíveis. 

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