AP Photo/Sandro Pace
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Análise: Peter Bogdanovich refletiu sobre o fim de uma Era

Os grandes filmes, mesmo que tenham sido poucos, garantem seu nome na história

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

06 de janeiro de 2022 | 15h57

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard faz uma observação importante sobre Peter Bogdanovich. Diz que o amor dele pelos velhos mestres de Hollywood - John Ford, Allan Dwan, Howard Hawks e Fritz Lang - é o que o torna interessante. Fritz Lang in America ousa levantar a hipótese de que o Lang hollywoodiano foi tão grande e até maior do que o autor expressionista do cinema alemão. Ao Homero do western, além de um livro, dedicou um documentário - Directed by John Ford. Mas o crítico, um pouco inspirado pelos franceses da Cahiers du Cinéma, sonhava tornar-se diretor. Conseguiu por meio de Roger Corman, que avalizou sua estreia no longa produzindo Targets, em 1968. 

Alvos - e no Brasil o filme chamou-se Na Mira da Morte. Um atirador solitário, escondido detrás da tela de um drive-in que apresenta um filme de terror - com Boris Karloff -, promove um banho de sangue entre os espectadores. O ex-presidente John Kennedy e Martin Luther King haviam sido assassinados. Bogdanovich ia diretamente ao ponto. Na América, o horror da realidade superava o horror ingênuo dos filmes (para o Boris Karloff, ele usou imagens de um filme de Corman). O amor pelos mestres levou Bogdanovich a fazer uma declaração audaciosa - todos os bons filmes já teriam sido feitos. Por que iniciar uma carreira, então? 

Justamente para refletir sobre o fim de uma era. O adeus aos drive-ins e seus programas duplos, a John Ford, ao western foram sua inspiração. Os EUA estão morrendo em A Última Sessão de Cinema, vencedor de vários Oscars, incluindo melhor ator e atriz coadjuvantes - Bem Johnson e Cloris Leachman -, em 1971. O Texas nos antípodas da lenda. Na tela do cinema, as imagens gloriosas de John Wayne em Rio Vermelho, de Hawks. Nas tramas do filme, adaptado do livro de Larry McMurtry, jovens sem perspectivas e adultos frustrados, que não sonham mais vivem à deriva. Nomadlands. Bogdanovich, por um momento, parecia o grande talento da nova geração. Simultaneamente, surgiram Steven Spielberg, George Lucas, Martin Scorsese. Forjaram a nova Hollywood. 

Bogdanovich seguiu uma carreira errática - a comédia Esta Pequena É Uma Parada, inspirada por Levada da Breca, outro Hawks; a homenagem aos clássicos de estrada e da Grande Depressão, Lua de Papel. Os bons filmes começaram a escassear. O envolvimento com Cybill Shepherd e, depois, com a coelhinha da Playboy Dorothy Stratten - a que foi assassinada - produziram filmes medíocres e/ou distanciaram Bogdanovich de sua ambição original. Marcas do Destino (Mask), com Cher, poderia ter sido um recomeço, mas o fracasso de público desestimulou o diretor. Ele voltou à função de crítico. 

Afinal, Quem Faz os Filmes?, um compêndio de conversas com Robert Aldrich, George Cukor, Alfred Hitchcock, Otto Preminger, Raoul Walsh, Frank Tashlin e muitos outros, é pródigo em revelações sobre os bastidores da indústria e a luta pela autoralidade, que Bogdanovich perdeu. O tempo não lhe foi favorável, mas os grandes filmes, mesmo que tenham sido poucos, garantem seu nome na história.

 

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