Alexander Natruskin/ Reuters
Alexander Natruskin/ Reuters

Análise: 'Pavarotti' traz retrato comportado de uma voz gigante do século 20

Filme apresenta depoimentos recheados de comparações e clichês. Já as polêmicas que rodearam a última década da vida do tenor, foram deixadas de fora

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2019 | 07h00

Na entrevista que concedeu a Mariane Morisawa, a viúva do tenor Luciano Pavarotti, Nicoletta Mantovani, conta que a família deu completa liberdade de pesquisa e criação ao diretor Ron Howard. Não foi um jogo arriscado. Pavarotti definia a si mesmo como um homem feliz, que recebeu um dom de Deus e o utilizou para levar a ópera ao povo. E o filme dificilmente se distancia dessa imagem.

Em uma tentativa de definir a voz do tenor, a soprano Carol Vaness afirma no documentário que era como se o céu descesse à terra. É preciso desculpá-la pelo clichê. Explicar uma voz em palavras não é tarefa fácil. E, no caso de uma voz tão especial quanto a de Pavarotti, torna-se, paradoxalmente, ainda mais difícil.

Comparações ajudam. Basta ouvir seus colegas dos Três Tenores. Plácido Domingo, de timbre escuro, grande ator, usava o colorido da voz à serviço de caracterizações únicas em seu tempo de personagens dramáticas. José Carreras tinha algo de metálico na voz, dando urgência juvenil e senso de heroísmo a tudo que cantava.

No caso de Pavarotti, porém, o que dá para dizer é que ouvi-lo era uma experiência de prazer quase físico, independentemente do que cantava. Era, entre os cantores de sua geração, “a” voz por definição. Límpida, cativante, lírica. Os adjetivos até existem. Mas não dão conta do tipo de reação que era capaz de despertar nas plateias.

Pavarotti estreou nos palcos no início dos anos 1960. E, em menos de uma década, tornou-se uma estrela, o rei dos “high C’s”, as notas mais agudas da tessitura de tenor. Assim foi definido pela capa da revista Time, e assim encontrou um espaço só seu na programação dos principais teatros do mundo, que disputavam sua agenda.

Nos anos 1970, o empresário Herbert Breslin enxergou além. Sugeriu ao tenor dividir sua agenda entre os palcos de ópera e turnês de recitais em que se apresentava sozinho, acompanhado apenas de piano ou orquestra. Pavarotti adorou. Era a voz em seu estado mais puro. Não havia cenários, figurinos, óperas longas, outros cantores. Apenas ele, interpretando as mais queridas árias e canções. O público adorou. 

Sua fama tornou-se ainda maior. Os palcos ficaram pequenos. E ele migrou para o circuito das grandes arenas dos shows de rock e pop. O mundo se rendia ao talento de um cantor de ópera, afirma o filme. Mas talvez tenha sido o contrário: Pavarotti, com a ópera a tiracolo, abria um novo mundo para o seu próprio talento. “Queríamos torná-lo cada vez maior”, diz Mantovani no documentário. 

Toda essa trajetória é mostrada por Ron Howard de maneira cativante, com imagens inéditas e muitas e iluminadoras entrevistas. Mas, em seu relato, há quase nenhuma contradição. 

A última década de Pavarotti não foi fácil. Fora do palco, enfrentou batalhas judiciais com a ex-mulher e com o governo italiano, que o processou por sonegação de impostos. Nos palcos de ópera, o desgaste vocal cobrou seu preço, levando a cancelamentos constantes, até mesmo em ocasiões especiais, como na Tosca com que se despediria do palco do Metropolitan de Nova York. A fórmula das turnês dos Três Tenores esgotou-se, levando ao fim das turnês – com bastidores dos desentendimentos entre os cantores sendo revelados (entre eles, o fato de que Pavarotti recebeu mais do que os colegas em 1990, estreia do projeto). Nada disso faz de Pavarotti uma figura menor. Mas a ausência desses e de outros episódios tira, no retrato pintado por Howard, um pouco da complexidade de uma das maiores figuras da arte do século 20. 

 

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