Magdalena Wosinska/The New York Times
Chadwick Boseman morreu aos 43 anos Magdalena Wosinska/The New York Times

Análise: 'O rosto do herói', por Lázaro Ramos

Ator Lázaro Ramos escreve sobre a morte de Chadwick Boseman e a importância de existirem heróis negros

Lázaro Ramos, Especial para o Estado

29 de agosto de 2020 | 13h40

Chadwick Boseman partiu para Wakanda. São muitas mortes que aconteceram em agosto: dona Chica Xavier, professor Jorge Portugal, o historiador Jaime Sodré... Todos ícones para várias gerações. Chadwick representa o rosto de um mundo ideal. Quem não queria morar em Wakanda? Eu, já um pai de família, adulto, me tornei criança e sonhei com esse herói negro e com aquele mundo em que as cores e as atitudes eram exemplos para os meus desejos inimagináveis. 

Tão jovem, Chadwick já tinha emprestado seu rosto para personagens como o jogador Jackie Robinson (42), o cantor James Brown (Get on Up), o juiz Thurgood Marshall (Marshall: Igualdade e Justiça) e, mais recentemente, interpretou Norman Earl “Stormin’ em Destacamento Blood, do Spike Lee. Todos eles referências para a gente se encontrar e se perceber possível. 

Os heróis que ele viveu são importantes, portanto, para as nossas formações coletiva e individual. E todos são filmes que, além de tudo, nos entretém – os rolezinhos de jovens negros e negras indo aos cinemas em grupos gigantescos para assistir Pantera Negra é uma imagem inesquecível e a comprovação de como essa história alimentou o nosso orgulho de sermos quem somos.

Fiquei triste porque num ano tão duro como 2020 a morte deste rosto heroico é por demais forte para não ser simbólica. Fica aqui minha gratidão e o pensamento de que tal qual ele diz em Pantera Negra “a morte não é o fim... é mais um ponto de partida”. Que a gente possa se inspirar nesses heróis negros que ele viveu e construir outros para termos forças para seguir.

 

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Chadwick Boseman em 2018 Magdalena Wosinska|NYT

Ator Chadwick Boseman, o 'Pantera Negra', morre aos 43 anos

Ele tratava um câncer de cólon havia quatro anos, segundo a família

Redação , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Chadwick Boseman em 2018 Magdalena Wosinska|NYT

Morreu nesta sexta-feira, aos 43 anos, o ator americano Chadwick Boseman. Mais conhecido por protagonizar os filmes do Pantera Negra, da Marvel Studios, Boseman também interpretou o músico James Brown e o jogador de beisebol Jackie Robinson no cinema. Seu empresário informou que ele não resistiu ao tratamento de um câncer de cólon.

O ator foi diagnosticado com câncer há quatro anos, afirmou a família em um comunicado. "Um verdadeiro batalhador, Chadwick resistiu durante todo o processo e levou a vocês muitos filmes que vieram a amar", afirma a nota. "Vários filmes foram gravados durante e entre muitas cirurgias e tratamentos de quimioterapia. Foi a honra de sua carreira dar vida ao King T'Challa em Pantera Negra", disse a família.

Boseman nunca falou publicamente sobre a doença. O ator morreu em sua casa, na região de Los Angeles, ao lado da mulher e outros familiares. Ele completaria 44 anos em 29 de novembro. Nascido na Carolina do Sul, filho de uma enfermeira e de um empresário da indústria de tapeçaria, Boseman tinha raízes em Serra Leoa, na África ocidental.

 

Chadwick Boseman se tornou o primeiro ator negro a interpretar um super-herói como protagonista em seu próprio filme do universo Marvel. Pantera Negra, ambientado no reino fictício de Wakanda, foi adorado pela crítica e pelo público, e se tornou o primeiro filme baseado em quadrinhos a concorrer na categoria de Melhor Filme no Oscar. Foi um enorme sucesso de bilheteria, arrecadanda US$ 1 bilhão no mundo todo.

Pantera Negra foi celebrado como um momento cultural importante por seu elenco majoritariamente negro e por subverter os estereótipos ao mostrar um país africano próspero que acolhe refugiados e estende sua cultura e tecnologia às nações mais pobres. 

No início da carreira, Boseman interpretou os ícones negros Jackie Robinson, em 42, filme de 2013 de Brian Helgeland e que teve a estreia de maior bilheteria para um filme de beisebol da história de Hollywood, e James Brown, em Get on Up. Por este filme de 2014, ele foi incluído pela revista Time na lista das dez melhores atuações daquele ano.

Recentemente, ele apareceu em Destacamento Blood, do diretor Spike Lee, e estrelaria a continuação de Pantera Negra, prevista para 2022.

COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS 

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Hollywood lamenta a morte de Chadwick Boseman, o 'Pantera Negra'

Colegas de elenco e diretores fizeram publicações nas redes sociais; Joe Biden e Kamala Harris também se pronunciaram sobre a morte do astro de 43 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 00h53
Atualizado 31 de agosto de 2020 | 11h35

Após o anúncio da morte do ator Chadwick Boseman, estrela de Pantera Negra, na noite desta sexta-feira, 28, atores, diretores, atletas e políticos se manifestaram nas redes sociais. Mark Ruffalo e Chris Evans escreveram sobre a experiência de trabalhar ao lado de Boseman. Kamala Harris, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos, disse que ele era "brilhante e humilde". A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood considerou "perda imensurável". Outros artistas, como  Samuel L. Jacksontambém expressaram pesar pela morte de Boseman

Boseman lutava secretamente contra um câncer de cólon há quatro anos, período em que seus filmes de maior sucesso foram gravados e o alçaram à fama. Além de ter vivido o primeiro super-herói negro da Marvel, o Pantera Negra, em quatro filmes, o ator também fez parte do elenco de Destacamento Blood, do diretor Spike Lee

O ator Mark Ruffalo, colega de elenco de Boseman nos dois últimos filmes dos Vingadores, disse no Twitter: "Foi uma grande honra trabalhar com você e conhecê-lo. Que ser humano generoso e sincero. Você acreditava na natureza sagrada do trabalho e deu tudo de si".

Chris Evans, que interpreta o Capitão América e também trabalhou com Boseman, escreveu: "Chadwick era especial. Um verdadeiro pioneiro. Ele era um artista profundamente comprometido e constantemente curioso. Poucos atores têm tanto poder e versatilidade. Ele ainda tinha tanto para criar. Serei eternamente grato pela nossa amizade". 

Kamala Harris, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos, também lamentou a morte do ator. A última publicação de Boseman nas redes sociais foi uma foto com Harris, compartilhada no dia em que sua candidatura foi anunciada. "Coração partido. Meu amigo Chadwick Boseman era brilhante, gentil, culto e humilde. Ele se foi muito cedo, mas sua vida fez a diferença", disse Kamala.

Ator Samuel L. Jackson também prestou homenagem ao amigo. "Obrigado, Chadwick Boseman, por tudo que você nos deu. Nós precisávamos e sempre iremos apreciá-lo. Um artista e irmão talentoso e generoso, que fará muita falta. Descanse em paz (RIP)."

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood publicou nas redes sociais que a perda do artista é imensurável. "De Black Panther a Da 5 Bloods, Chadwick Boseman trouxe força e luz para a tela, todas as vezes."

Joe Biden também lamentou a morte do ator. "O verdadeiro poder de Chadwick Boseman era maior que tudo que vimos nas telas. Do Pantera Negra a Jackie Robinson, ele inspirou gerações e mostrou que eles podem ser tudo que quiserem ser - até super-heróis."

Kevin Feige, presidente da Marvel, divulgou um comunicado em que diz que a morte de Chadwick é devastadora: "Ele era o nosso T'Challa, nosso Pantera Negra e nosso querido amigo", disse ele. "Toda vez que ele pisava no set, radiava carisma e alegria, e toda vez que aparecia nas telas, ele criava algo realmente indelével. Ninguém era melhor em trazer grandes homens à vida. Ele era esperto, gentil, poderoso e forte quanto qualquer pessoa que ele interpretou."

Marvel Studios também lamentou a morte do artista. "Nossos corações estão partidos e nossos pensamentos estão com a família de Chadwick Boseman. Seu legado viverá para sempre. Descanse em paz."

Brie Larson, a "Capitã Marvel", escreveu sobre a sua relação com o ator: "Chadwick era alguém que radiava poder e paz, que representava algo muito maior que ele, que tirava um tempo para saber como você estava e dizia palavras de incentivo quando você estava insegura. Tenho orgulho das lembranças que eu tenho". 

Em referência ao reino fictício de 'Wakanda', DC Comics prestou condolências pela morte de Chadwick. "A um herói que transcende universos. 'Wakanda' para sempre. Descanse em 'poder', Chadwick."

A atriz Halle Berry também falou sobre Boseman nas redes sociais: "um homem incrível de talento imensurável, que viveu apesar de suas batalhas pessoais. Você nunca sabe o que as pessoas ao seu redor podem estar passando - trate-as com gentileza e aprecie cada minuto juntos". 

A atriz Viola Davis diz que não há palavras para expressar sua devastação em perdê-lo. "Seu talento, seu espírito, seu coração, sua autenticidade. Foi uma honra trabalhar com você, poder te conhecer. Descanse bem, meu príncipe. Que voos de anjos cantem para teu descanso celestial. Eu te amo."

A apresentadora Oprah Winfrey também lamentou a morte do ator de "Pantera Negra". "Que alma gentil e talentosa. Mostrando-nos toda aquela grandeza entre cirurgias e quimioterapias. A coragem, a força e o poder necessários para fazer isso. É o significado da dignidade."

A cineasta Ava DuVernay também lamentou a perda. "Que você tenha um lindo retorno, rei. Sentiremos muito a sua falta."

 

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Chadwick Boseman: a morte do guerreiro num momento crucial da luta antirracista

Chadwick Boseman morreu aos 43 anos, depois de uma luta de quatro anos contra um câncer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 11h59
Atualizado 31 de agosto de 2020 | 11h29

Todo mundo se lembra do apresentador Jimmy Kimmel no Oscar de 2018. A cada 15 ou 20 minutos, ele atualizava os números da bilheteria de Pantera Negra. Mais US$ 1 milhão, mais um, mais um. Pantera Negra estourava. Virou um fenômeno social, como, aliás, fora Mulher Maravilha um ano antes. Depois do empoderamento feminino, o afago na autoestima do público negro. No ano passado o blockbuster de Ryan Coogler somou várias estatuetas na premiação da Academia. Wakanda forever. Wakanda agora está de luto pela morte de seu príncipe.

Chadwick Boseman lutava havia quatro anos contra um câncer de cólon. Morreu na noite de sexta-feira, 28. Tinha 43 anos. Era ator, diretor e roteirista. Antes de adentrar glorioso no Universo Marvel, criando o super-herói negro, destacou-se por seus retratos de personagens reais. Foi Jackie Robinson em 42, James Brown em Get on Up e Thurgood Marshall em Marshall. Além da sua aventura solo como Pantera Negra, o personagem apareceu em Capitão América: Guerra Civil, Os Vingadores: Guerra Infinita e Os Vingadores: Ultimato.

Na época, ninguém sabia, já que a discrição foi total, mas ele filmava suas cenas de ação alternadamente com sessões de quimioterapia para tentar fazer regredir a doença. 

Revelava coragem, e resiliência. Boseman nasceu em Anderson, na Carolina do Sul, em 29 de novembro de 1976. Formou-se na TL Hanna High School em 1995. Escreveu sua primeira peça, Crossroads, e a encenou na escola, depois que um colega foi baleado e morto. Começava uma carreira de militância. Prosseguiu os estudos na Universidade Howard, em Washington, onde se formou, em 2000, em artes plásticas e direção. Seu sonho era ser escritor e diretor, e ele foi fazer um curso de interpretação na Inglaterra, convencido de que ajudaria no seu relacionamento com atores.

Estreou na TV em 2003. Participou de episódios de séries como Law & Order, CSI New York e ER. Dirigia uma peça off-Broadway no East Village quando foi chamado a fazer um teste para ator no filme 42, sobre o lendário jogador de beisebol Jackie Robinson. Chegou a pensar em desistir do teste, porque preferia ser diretor e dramaturgo, mas foi aprovado e sua vida tomou outro rumo.

Interpretou guerreiros. O super-herói T’Challah, o deus Tot (em Deuses do Egito). Interpretou os heróis do cotidiano, que enfrentaram o preconceito. O astro do beisebol Robinson, o cantor, compositor e produtor musical James Brown. Rapidamente, num período curto de tempo, fez história e virou referência no imaginário do público afro-americano.

Nas redes sociais, amigos e fãs lamentaram a morte de Chadwick. “Obrigado, Chadwick, por tudo que você nos deu. Precisávamos disso e vamos sempre dar valor a isso”, escreveu Samuel L. Jackson. E Oprah Winfrey: “Que alma gentil e abençoada. Grandeza entre cirurgias e sessões de químio. A coragem, a força que isso exige. Esse é o rosto da dignidade”.

Boseman não teve tempo de fazer Pantera Negra 2, mas deixou pronto um filme produzido por Denzel Washington e coestrelado por Viola Davis. Ma Rainey's Black Bottom é uma adaptação da peça de mesmo nome, de 1982, do dramaturgo August Wilson. 

A morte de Boseman ocorre num momento crucial da vida norte-americana, depois do assassinato brutal de George Floyd, que desencadeou uma onda de protestos que reverberou pelos EUA e o mundo, e depois de outro policial dar 7 tiros em Jacob Blake, também negro, pelas costas. Os EUA vivem os maiores protestos raciais desde o movimento por direitos civis, nos anos 1960. Em Destacamento Blood, Spike Lee fez de Boseman o porta-voz do discurso politizado da época.

I can't breathe, Black Lives Matter. Boseman morreu em casa, em Los Angeles, acompanhado pela mulher, a cantora Taylor Simone Ledward, com quem se casou em outubro do ano passado. Enquanto isso, as ruas são tomadas pela comoção e o presidente Donald Trump, candidato à reeleição, exalta a lei e a ordem, glorificando a polícia e demonizando os manifestantes. Vidas negras importam. A de Chadwick Boseman, infelizmente, extingiu-se cedo demais.

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