Análise: O mistério dessa relação particular entre mãe e filha em 'Julieta'

Em novo longa, Almodóvar faz retorno ao mundo feminino

O Estado de S.Paulo

07 Julho 2016 | 05h00

Dizer que com Julieta Almodóvar retorna à antiga forma significaria afirmar que um dia a perdeu. O que não é verdade, com a possível exceção de Os Amantes Passageiros, uma comédia equivocada. Julieta é seu 20.º longa e retorna ao mundo feminino, dos dramas familiares, em seu registro melodramático único e talentoso. Desta feita, inspira-se em três contos de Fugitiva, da canadense Prêmio Nobel Alice Munro – Ocasião, Daqui a Pouco e Silêncio.

Ele os fundiu em narrativa única que tem como protagonista Julieta Arcos (Adriana Ugarte quando jovem, Emma Suárez na maturidade). A história principia quando a Julieta de meia-idade planeja uma longa viagem a Portugal com seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Um encontro casual com uma jovem na rua faz com que mude por completo de planos. Mais: coloca sua vida em questão, a ponto de não apenas cancelar a viagem, mas mudar de casa, fugir do namorado e começar a escrever um memorial destinado a uma pessoa querida em que tenta reencontrar algum centro na existência. Essa a narrativa, que vai do presente ao passado por meio de flash-backs.

Uma história pontuada pela culpa, desdobrada em dois tempos. Culpa por não perceber a tendência suicida de um passageiro num trem. Culpa pela briga com o marido que o leva a expor-se a um mar bravio. Culpa e punição, esta autoinfligida por quem sente que não esteve à altura dos acontecimentos em determinado momento: “Poderia ter agido de outra forma e não o fiz” é o tema recorrente do remorso.

Cena de 'Julieta'

Sente-se, ao longo do filme, essa ruminação da personagem, como a nos dizer, a todo instante, que a vida é mais complexa do que um anúncio publicitário. Podemos buscar a felicidade, mas esta não é uma fatalidade nem mesmo uma obrigação. Pode ser mesmo obra do acaso, ou mesmo não existir. A todo momento, somos solicitados por forças que se opõem à felicidade e nem sempre sabemos o que fazer com elas.

O que mais cativa no cinema de Almodóvar não são tanto seus temas, mas a maneira como os trabalha. Desde os primeiros planos do filme, sente-se a relação calorosa com os personagens, algo que se esculpe pelas cores primárias, pela maneira como a câmera os enquadra, pela música que os acompanha, pelo tipo de diálogo em que se engajam com seus semelhantes. É, também, o mundo feminino, em que as mulheres são sempre protagonistas, embora circundadas de homens que, como de hábito, não sabem direito o que fazer com elas, por melhores que sejam suas intenções.

Em Julieta, Almodóvar deixa de lado as discussões de gênero presentes em alguns dos seus melhores filmes. Ou o faz de forma lateral, numa passagem importante que, no entanto, é pouco desenvolvida. É menos subversivo e mais terno, ao adentrar o universo da família e a questão da maternidade. Se não revoluciona as questões de costumes e usos sexuais, trabalha mais de perto os sentimentos íntimos, a delicadeza dos relacionamentos humanos, os pequenos detalhes, os ciúmes e rivalidades, a profundidade dessa relação tão especial entre mãe e filha.

A maneira como a trama é montada parece remeter a uma ordem trágica, na qual pequenas decisões podem determinar consequências enormes. Tais como acontece quando a jovem professora Julieta resolve mudar de lugar num trem por causa de um passageiro importuno. No vagão restaurante, conhece um homem jovem, Xoan (Daniel Grao), o que pode ser uma sorte, mas que comportará um preço a pagar. Ou mais de um. Ao tentar acertar, Julieta, erra. E quando deseja esquecer, o destino bate à porta, para evocar esse título famoso.

Da prosa soturna de Alice Munro, Almodóvar extrai um filme que atravessa a escuridão rumo a um fiapo de luz. Para confortar o espectador no desfecho, escolhe uma velha canção, Si no Te Vas, de Cuco Sanchéz, como fizera com Tonada de Luna Llena em A Flor do Meu Segredo. A música é uma espécie de afago.

 

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