Joba Migliori
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Análise: 'O Filme da Minha Vida' faz um rito de iniciação em ambiente marcado pela beleza

Longa é, como definiu Selton Mello, um presente para o espectador em tempos difíceis

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 06h01

Em obra inspirada no texto do chileno Antonio Skármeta, Selton Mello, em seu terceiro longa, dá seguimento seguro à sua carreira de diretor. 

No primeiro, Feliz Natal, Selton abusava um pouco das suas referências de cinéfilo, mas, apesar da sobrecarga, também fazia seu trabalho mais ousado. Em O Palhaço, houve uma simplificação, no bom sentido do termo, e uma parceira enriquecedora com Paulo José - grande ator e também pensador do cinema, das artes e da vida. Agora, em O Filme da Minha Vida, Selton ampara-se na arquitetura sólida de um texto bem construído e, com esses alicerces, deixa voar a imaginação. O pequeno romance de Skármeta (autor de O Carteiro e o Poeta) chama-se Um Pai de Cinema. O título promete articulação com a magia do cinema e não nega fogo, embora seja, de certa forma, um anti-Cinema Paradiso. 

O Filme da Minha Vida refere-se, em sua essência, a um rito de passagem. No caso, um tanto tardio, pois o personagem principal, Tony Terranova, é um jovem de 20 anos, formado, que, no regresso à sua Remanso natal, na serra gaúcha, torna-se professor de francês. No entanto, ele tem de dar conta de um elemento traumático da sua biografia. Assim que Tony voltou para casa, seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), francês, retornou para a Europa, sem dar maiores explicações. Sumiu. Enquanto um chegava, outro partia, deixando um vazio a ser preenchido pelo jovem. Um vácuo a ser preenchido de sentido.

A mãe, Sofia (Ondina Clais), é uma mulher silenciosa. O mentor de Tony, Paco (o próprio Selton Mello), especialista na formulação de frases lapidares, mantém alguns fatos fundamentais na surdina. Tony se apaixona por Luna (Bruna Linzmeyer), mas se sente também atraído pela irmã da moça, a envolvente Petra (Bia Arantes). Enquanto isso, tem de levar um aluno ao bordel da cidade vizinha, para que este se inicie nas artes eróticas. O próprio Tony vê-se necessitado de uma iniciação, que a vida acaba por lhe trazer, e não da forma que esperava.

De certa forma, a trajetória de Tony é a de uma psicanálise, em que algumas pistas são colocadas para o indivíduo, mas terá de ser ele, e somente ele, a formular conclusões sobre si mesmo. Deve preencher lacunas de sua biografia, inventar hipóteses sobre seu “romance familiar” (expressão de Freud) ou ainda, de maneira mais modesta, encontrar um jeito de viver e trabalhar. Em relativa paz e funcionalidade, o que é uma das definições possíveis da saúde, segundo o mesmo Freud. Capacidade de amar e trabalhar - nada mais nem nada menos.

Esse trajeto existencial vem num formato em que a beleza joga papel fundamental. Beleza dos rostos, das paisagens e ambientes, captados pela lente de Walter Carvalho. Mas, no limite, beleza dos sentimentos positivos, que acabam por prevalecer. Essa exuberância, talvez excessiva, serve também para aplainar certas arestas, apenas insinuadas na dramaturgia. Sem ser um feel good movie (filme para se sentir bem) no sentido clássico, O Filme da Minha Vida é, como definiu Selton Mello, um presente para o espectador em tempos difíceis. Um bombom. 

 

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