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Análise: 'O Clã' mostra quando os delitos da ditadura se tornam crimes da vida civil

Diretor Pablo Trapero faz um belo exercício de suspense.

Luiz Zannin Orrichio, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2015 | 04h30

Com O Clã, o diretor Pablo Trapero faz um belo exercício de suspense. Afinal, trata de uma quadrilha de sequestradores com métodos de “trabalho” tão sofisticados que desafiam todo o empenho do aparelho policial.

Mas evidentemente não se trata de um exercício banal de suspense, de uma forma passageira de arrepiar os cabelos do distinto público. Se motivos existem (e como existem!) para calafrios, eles estão em outra parte e é para lá que esse filme brilhante nos leva.

Para começar, trata-se de um caso real. Uma família inteira, liderada pelo patriarca Arquimedes Puccio (Guillermo Francella) e por seus filhos, que comete os sequestros. As mulheres da família são, no mínimo, cúmplices silenciosas. Arquimedes é ajudado ainda por dois amigos. E apenas um dos filhos não aguenta a situação e se manda.

O outro dado importante é que Arquimedes e seus amigos são oriundos das Forças Armadas. Ou melhor, dos serviços secretos, que faziam o trabalho sujo durante a ditadura militar argentina (1976-1983). É por isso que o longa começa com cenas documentais da posse do presidente Raúl Alfonsín, demarcando os períodos históricos. Após a derrota na Guerra das Malvinas, os militares perderam espaço e tiveram de devolver o poder aos civis. Com o fim da ditadura, a parte mais comprometida com a repressão e o assassinato de opositores perdeu função. De certa forma, os Puccios se reciclam e se adaptam a uma nova realidade, utilizando o know how obtido numa era encerrada.

Desse modo, e deixando de lado o humor negro evocado pela situação, o que Trapero traz à baila é algo mais perturbador. Ditaduras deixam sequelas, isso já se sabe. Mas talvez se medite menos sobre outros subprodutos da brutalidade, tais como os representados por esses profissionais do terror que, não encontrando mais função na vida civil, decidem não entregar os pontos e continuar a obter benefício do trabalho sujo a que se acostumaram e no qual se especializaram. Arquimedes Puccio é, sem dúvida, um psicopata social. Mas, como já disse um escritor, se é louco, há método em sua loucura. Os desvios vêm de outra parte, e outra época, quando o valor da vida humana era próxima de zero. Puccio simplesmente capitaliza a mentalidade da barbárie para uso e lucro pessoal.

O caso policial se inscreve no longo empenho do cinema argentino em investigar seus anos de chumbo. O fato de Trapero adotar o tom e estilo de um thriller torna o filme atraente, sem diminuir a dramática carga de incômodo político. Sem necessidade de didatismo, O Clã faz essa costura fina entre condicionantes históricos e a atitude criminosa de uma família. Não insinua relação de causa e efeito, mecânica e simplificada entre práticas da ditadura e criminalidade posterior. Mas mostra, sem qualquer atenuante, que o clima de terror e impunidade criado num regime de exceção pode perfeitamente contaminar a nação mesmo quando a ditadura formalmente estiver extinta. Os Puccios são apenas um caso exemplar.

 

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