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Análise: 'O Cidadão Ilustre' expõe perigos e dilemas da fama

Longa está entre a comédia e o drama

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2017 | 20h24

Um verso de Kaváfis dos mais interessantes diz algo como “você crê ter deixado tua cidade, mas tua cidade te segue”. É o que acontece com o escritor Daniel Mantovani (Oscar Ramirez) no filme argentino O Cidadão Ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Nascido na pequena Salas, interior da Argentina, e vivendo na Europa há mais de 30 anos, Mantovani só consegue escrever ficção baseada no ambiente e nos tipos de sua cidade de origem. Assim fazendo consagrou-se, enriqueceu e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Tornou-se uma personalidade mundial, requisitada por todos. O escritor português José Saramago disse uma vez que, depois de ganhar o Nobel, nunca mais havia conseguido escrever uma linha sequer, tamanho o volume de solicitações de entrevistas, homenagens e pedidos de todos os tipos. É o que acontece com Mantovani, que diz não a todos e a tudo. Menos ao convite para que passe uma semana em sua cidadezinha natal para receber um título honorífico, autografar livros e dar palestras. Para surpresa de sua secretária, Mantovani decide viajar - e só - para reencontrar seu passado, velhos amigos, antigos amores. E, por certo, algumas surpresas.

O Cidadão Ilustre é filho daquele tipo de comédia dramática que remonta à tradição da commedia all’italiana, de Dino Risi e Mario Monicelli. Começa de um jeito, apenas engraçada, farsesca, leve, mas vai ganhando corpo e abrindo fissuras pelas quais o drama e, às vezes a tragédia, se intrometem. Claro está que esse tipo de filme depende muito da qualidade do roteiro e este é especialmente bem escrito. Bons diálogos, mas também uma boa estrutura central, que inclui digressões, sem se afastar do eixo. 

O espectador também deve sentir a qualidade do elenco, a começar por Oscar Martinez, que encarna um escritor arrogante, autoconsciente, porém com algumas fraquezas internas, que vão aparecendo ao longo da história. Não se trata apenas de Martinez, mas de todo um elenco que rende muito bem, dialogando às vezes com o caricato, mas mantendo distanciamento bem-humorado e irônico em relação a seus personagens. São, para citar dois casos, Manuel Vicente, como o orgulhoso prefeito, ou Nicolás de Tracy, como Florencio Romero, desafeto local de Mantovani. 

O Cidadão Ilustre é engraçado, mas vai além da graça. Estuda, por exemplo, a tênue fronteira entre o amor e o ódio, coisa que todo ídolo no fundo conhece muito bem. Discute também a questão do romance, que se apropria de personagens reais para criar ficção, e embute no debate o problema ético em relação a seres complexos, que estão sendo retratados como tipos, e à sua revelia. De certa forma, Mantovani tem razão quando diz que seus personagens não conseguem sair de Salas, mas ele mesmo não tem mais direito de cidadania em sua terra natal. Apesar de ser um cidadão ilustre e orgulho de sua comunidade. 

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