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Análise: O Chatô que tentei exumar em 600 páginas está lá

Filme é divertido, inteligente, ousado e atrevido

Fernando Morais, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 05h00

No dia em que o jornalista Assis Chateaubriand morreu, em outubro de 1968, o diretor do Museu de Arte de São Paulo, Pietro Maria Bardi, mandou decorar com três obras-primas a câmara ardente onde Chatô era velado: a tela Banhista com o Cão Grifo, um nu gigantesco de Renoir, ao lado da qual pendurou o Retrato do Cardeal Cristófaro Madruzzo, de Ticiano, e o Goya Don Juan António Llorente, um majestoso retrato do secretário da Inquisição espanhola. Aos olhos dos diretores dos Diários Associados, expor em um velório dois religiosos e uma mulher despida era algo inadmissível. Mandaram retirar os quadros, mas Bardi bateu o pé:

– Mas dottore, esta é minha última homenagem ao Chatô. Nesta parede, estão as três coisas que ele mais amou na vida: o poder, a arte e mulher pelada.

Foi essa frase de Pietro Bardi – a última do livro Chatô – que minha memória desenterrou quando acabei de ver o filme homônimo de Guilherme Fontes, anteontem à noite, em São Paulo. Não cheguei a perguntar ao diretor se esta tinha sido a inspiração de seu roteiro. Mas, se o Chatô pintado por Bardi é fiel, a adaptação atingiu seu objetivo. O filme retrata com humor e sarcasmo um homem patologicamente obcecado pelo poder, pelas mulheres e pelo sonho de construir museus “para civilizar o Brasil”.

Jorge Amado costumava fazer uma recomendação aos autores que vendiam seus livros para adaptação cinematográfica. “Não vejam o filme”, sugeria. “Livro é livro, filme é filme.” Se a advertência vale para romances, mais ainda valerá para obras de não ficção, que é o caso do meu livro. Autor que for ao cinema à espera de ver seu trabalho sob a lupa do rigor histórico se frustrará. Desde que não fraude nem mutile a obra original, a chamada “liberdade dramatúrgica” é infindável.

Na saída do cinema, ouvi alguém dizer que o personagem Rosenberg, vivido no filme por Gabriel Braga Nunes, é uma fusão dos jornalistas Carlos Lacerda e Samuel Wainer. Mas alguém poderá perguntar: é possível fundir Lacerda e Samuel num único personagem? Na vida real, não. Mas cinema é mentira.

O Chatô que tentei exumar em seiscentas páginas de livro está lá, autêntico, na obra de Guilherme. Chatô, o Rei do Brasil é um filme divertido, inteligente, ousado, atrevido. Como foi em vida o fascinante Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo.

* FERNANDO MORAIS É ESCRITOR E BIÓGRAFO

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