Diamond Films
Diamond Films

Análise: Novas revelações sobre ataque levaram diretor a fazer '7 Dias em Entebbe'

Longa é filmado em paralelo com a dança e esse é um recurso a que só os maiores se arriscam

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 06h00

Há algo de mágico, e belo, no novo filme de José Padilha, 7 Dias em Entebbe, que estreou na quinta, 19. Há muita coisa que se presta à polêmica, também, mas essa acompanha o diretor. Padilha comemorou em fevereiro, no Festival de Berlim, os dez anos do Urso de Ouro que conquistou por Tropa de Elite, o primeiro. E também aproveitou para lançar o thriller baseado no sequestro de um jato da Air France por um comando conjunto palestino e alemão (integrantes do Grupo Baader Meinhoff), nos anos 1970. Na época, uma operação do Exército israelense logrou recuperar o avião e a quase totalidade dos reféns. Considerada paradigma de sucesso, a operação passou a ser contestada com o tempo. O filme estreia no momento em que o diretor provocava reações apaixonadas, a favor e contra, nas redes sociais, por sua série sobre a Lava Jato, O Mecanismo.

+++ José Padilha se arrisca no conflito de israelenses e palestinos em '7 Dias em Entebbe'

Ao Estado, Padilha disse que novas revelações sobre o ataque israelense ao aeroporto de Entebbe, em Uganda - e desdobramentos do episódio na história de Israel -, tornaram interessante para ele voltar à história que teve três versões no calor da hora. O diretor gosta de dizer que não filma para criar heróis. Admite que sua obra pode ser malcompreendida. “Fiz um filme (Tropa de Elite) contra o Bope, mas ele foi entendido como pró-polícia”, reflete. O Mecanismo foi acusado de distorcer fatos para celebrar a Lava Jato. Para Padilha, o foco era outro - a crise de Ruffo/Selton Mello no cumprimento da lei, não a sua certeza.

7 Dias em Entebbe começa e termina no palco de um teatro, mas durante as duas horas da projeção o palco é outro. Ou são outros - a pista, com o avião estacionado e o hangar em que os reféns são confinados, em Uganda, e os locais em que se realizam as reuniões de gabinete em Israel. Em toda parte existem fissuras - políticas, familiares, institucionais. Daniel Brühl e Rosamund Pike, os alemães do comando, são colocados sob suspeita, como ‘burgueses’, pelos palestinos. Ele, que antes de ser revolucionário era editor, acusa o drama - um alemão sequestrando judeus parece repetição do nazismo.

No gabinete, o premier Yitzhak Rabin e o ministro da Defesa Shimon Peres divergem quanto à validade da operação. Mesmo quando a aceita, Rabin faz ver a Peres que um dia Israel terá de negociar com os palestinos. O letreiro final informa que, em 2018, nenhuma negociação está em curso. E há a família - o irmão do atual premier Benjamin Netanyahu comanda a operação. Seu especialista de tiro está num momento complicado com a mulher. Ela é bailarina, ele não estará presente numa estreia. Durante o espetáculo, ela tem de se jogar no chão. O diretor nunca fica satisfeito - é preciso jogar-se sem destemor, na arte como na vida. Comprometer-se. O ataque em Entebbe é filmado em paralelo com a dança, e esse é um recurso a que só os maiores se arriscam - Visconti, Coppola. Arte e vida. Muita gente está achando 7 Dias em Entebbe um thriller convencional. É verdade só em parte. Alguns personagens podem ser mais bem desenhados - Rosemund, Brühl. O que faz a diferença é a dança. O desfecho, com a performance dos dois artistas, é a mais bela cena filmada por Padilha em sua carreira. Impossível não registrar a fluidez da câmera operada por Lula Carvalho, parceiro (com o montador Daniel Rezende) do cineasta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.