Vantoen Pereira Jr.
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Análise: No final da carreira, Arnaldo Jabor voltou-se para o próprio passado

Com ‘A Suprema Felicidade’, cineasta ofereceu uma bela despedida

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

15 de fevereiro de 2022 | 11h02

Arnaldo Jabor. que morreu na madrugada desta terça-feira, 15, aos 81 anos, surgiu nos anos 1960, integrado ao movimento do Cinema Novo, mas se afastou dele por considerá-lo “masturbatório”. Aos 25 anos, estreou na direção com o curta O Circo. Dois anos mais tarde, fez o média Opinião Pública, refletindo sobre a classe média. Os dois filmes formaram um programa duplo lançado nos cinemas.

Jabor ganhou o elogio da crítica, mas logo veio o fracasso de Pindorama. Alegórico e barroco, o filme era tudo aquilo que o autor criticava no Cinema Novo. No começo dos anos 1970, redimiu-se do que parecia uma trajetória ziguezagueante ao adaptar Nelson Rodrigues. Em Toda Nudez Será Castigada, ele encontrou sua voz. A classe média revelada por meio da hipocrisia sexual. A paixão do viúvo Herculano pela prostituta Geni, o desfecho impactante com o ladrão boliviano. A trilha com tangos de Astor Piazzolla e Darlene Glória criando uma das maiores personagens femininas da história do cinema brasileiro.

Toda Nudez virou clássico, mas, ao repetir Nelson Rodrigues, com O Casamento, de 1975, Jabor não obteve o mesmo sucesso. Ziguezagueou de novo. Em 1978, num lampejo de lucidez, colocou o Brasil do regime militar dentro de um apartamento e iniciou, com Tudo Bem, a trilogia entre quatro paredes. Um grupo de operários faz a reforma de um apartamento – do regime? Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo, Regina Casé e grande elenco.

Na sequência, surgiram Eu Te Amo, de 1980, com Sonia Braga, que bateu recordes de bilheteria, e Eu Sei Que Vou Te Amar, de 1986, que valeu a Fernanda Torres o prêmio de melhor atriz em Cannes – e foi adaptado para o teatro.

Os anos seguintes foram difíceis e Jabor fez apenas um curta, Carnaval, em 1990. O (des)governo Collor e a Retomada o mantiveram longe das telas. Tornou-se um cineasta da palavra. Virou articulista na grande imprensa e comentarista na TV. Esteve na contramão dos governos do PT. Isso lhe valeu não poucas inimizades. Começaram a circular na internet textos a ele atribuídos, mas cuja assinatura ele não reconhecia. Bradava: “A paranoia está batendo”.

Voltou à direção e, em 2010, lançou um de seus mais belos filmes: A Suprema Felicidade. De certa forma, o seu Amarcord. Voltou-se para o próprio passado, reconstituindo a vida familiar, os anos na escola, as experiências na zona de baixo meretrício do Rio de sua juventude, no Mangue. A Suprema Felicidade carece de uma estrutura dramática, parecendo mais uma sucessão de vinhetas. Os críticos que aceitavam isso em Federico Fellini passaram a cobrar de Jabor. Ainda eram resquícios das inimizades como articulista.

A Suprema Felicidade possui grandes cenas e interpretações. Magníficos fragmentos de cinema. Marco Nanini como o avô, e as mulheres – Mariana Lima, Maria Flor, Maria Luiza Mendonça, Tammy Di Calafiori. Jabor foi um grande dialoguista nos filmes da trilogia (não por acaso, Eu Sei Que Vou Te Amar fez a passagem da tela para o palco). O monólogo final de Mariana Lima – a mãe – é das cenas mais belas filmadas no Brasil. Uma bela despedida de Jabor. Sua obra pode ser irregular, mas, quando acertava, ele era grande.

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