Paris Filmes
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Análise: 'Neve Negra' traz Ricardo Darín em papel inesperado

Ator argentino, numa nota mais dark, não decepciona

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 06h00

Neve Negra, de Martin Hodara, não chega a ser exatamente um “Darín movie”, embora Ricardo Darín esteja no elenco e, por si só, seja um trunfo do filme. Como ele é mais do que dele espera seu eleitorado, mostra que pode render além da imagem padrão de charme, olhos claros e tristes, fisionomia gasta pela vida de maneira regular e generosa. Em Neve Negra, ele interpreta papel bem mais radical do que de hábito.

Ele é um dos pivôs de uma tragédia familiar que se arrasta da infância à maturidade e estabelece relação belicosa entre dois irmãos. Salvador (Darín) é o que ficou na propriedade da família na gelada Patagônia e vive da caça, isolado em uma cabana. Marcos (Leonardo Sbaraglia) é o que saiu para o mundo e agora regressa, trazendo sua mulher, a espanhola Laura (Laia Costa). 

Além do litígio entre irmãos, há uma questão premente - a venda das terras da família, já que uma empresa estrangeira oferece uma fortuna por elas. Marcos quer vender porque tem muitas despesas, inclusive com a irmã, internada numa clínica psiquiátrica. Mas Salvador não quer nem ouvir falar de vender o sítio e as matas que o circundam, sua reserva privativa de caça. 

Pode-se dizer, sem cometer o pecado contemporâneo do spoiler, que tanto a irmã, quanto a prática da caçada têm a ver com a atmosfera pesada e ameaçadora que flutua sobre a família. 

O próprio andamento do filme vai dando pistas ao espectador através de flashbacks, retornos à infância dos personagens, a cada vez mais inquietantes. Nem por isso entrega de todo o segredo que paira sobre a montanha e será revelado somente nos atos de desfecho da história. Um detalhe técnico: quem achar que a paisagem da Patagônia, que conhecemos de tantas outras produções argentinas, parece bem mais europeia do que de costume, estará acertando na mosca. As filmagens de neve foram rodadas nos Pireneus, entre a França e a Espanha, país coprodutor do longa.

Darín, numa nota mais dark, não decepciona. Sbaraglia excede-se e interpreta um dos seus melhores papéis. O veterano Fernando Luppi, num pequeno papel, o de advogado da família, acrescenta outro toque de classe a essa produção de prestígio. Elenco, fotografia, cenários - tudo aponta para um “cinema argentino de qualidade”, com bom trânsito entre o público e responsável, muitas vezes, por comparações depreciativas em relação ao cinema brasileiro, que seria desprovido dessas virtudes de artesanato e bom gosto. Não é bem assim, mas preconceitos arraigados são difíceis de remover. Em todo caso, este, que é o filme de estreia solo de Hodara, é exemplo de como se pode fazer cinema de diálogo com o público sem insultar a inteligência de ninguém. 

Denso e interessante, tenso e bem acabado do ponto de vista formal, Neve Negra passa a impressão de ser um daqueles filmes pensados demais, com pouco espaço para a intuição e a invenção. Sente-se que partiu de um roteiro rígido, filmado de maneira minuciosa para manter viva a tensão, contendo pontos de inversão de perspectivas e surpresas finais. Esse esquematismo de prancheta lhe tira um pouco o frescor do inesperado e lhe dá tom um tanto artificial, construído em exagero. Mas é bom filme. 

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