David Hindley/LD Entertainment/Roadside Attractions
David Hindley/LD Entertainment/Roadside Attractions

Análise: Não há dúvidas de que Renée Zellweger vencerá o Oscar

Mais que interpretar a mítica Judy Garland, ela parece encarná-la

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 06h00

Vai dar ela. Depois de vencer o Globo de Ouro de melhor atriz dramática e o SAG Award, do Sindicato dos Atores, ninguém mais duvida que Renée Zellweger vencerá o Oscar na noite de 9 de fevereiro. Renée fez sua lição de casa direitinho. Mais que interpretar a mítica Judy Garland, ela parece encarná-la. Emagreceu, adquiriu os tiques nervosos, canta. Judy talvez não seja um grande filme, mas é certamente bom. Possui um roteiro muito interessante.

Antes de Renée, Darci Shaw, que faz a Judy garota. Começa no set de um filme que virou cult, O Mágico de Oz. Uma conversa entre o poderoso Louis B. Mayer e Judy. O dono do estúdio, a Metro, marca do leão, explica à garota porque ela foi escolhida para fazer Dorothy. É uma conversa esquisita. Ele a pressiona – hoje se diria que assedia, até abusa. Ela quer ser alguém, ou ninguém? Para ser alguém, Judy submete-se à ditadura do estúdio, que controla sua vida pessoal – o namorico com o também jovem Mickey Rooney – e se entrega a um regime intensivo. Pílulas para tudo. Dormir, ficar de pé, controlar a alimentação, a ansiedade etc.

O resultado é essa criatura ambivalente retratada no longa de Rupert Goold. Ele é mais conhecido como diretor de teatro na Inglaterra. Cria esse retrato da grande artista devastada emocionalmente, e dependente das pílulas. Só para lembrar, O Mágico de Oz foi um dos filmes que esculpiram, no imaginário do norte-americano médio, um dos grandes, senão o maior tema do cinema dos EUA – o retorno ao lar. Justamente um lar é o que Judy não tem, e não consegue oferecer aos filhos. O filme a surpreende nesse momento decisivo – uma turnê em Londres pode lhe garantir o dinheiro de que necessita. Mas têm os problemas de sempre – a instabilidade emocional, o manager errado. O filme traça um quadro pesado. Judy, privada do amor de Rooney, tiranizada por Mayer, vai de desastre em desastre nas escolhas amorosas.

A temporada em Londres evoca curiosamente um de seus últimos filmes. O título poderia resumir a vida e obra da estrela. Na Glória, a Amargura, I Could Go on Singing no original, de 1963. Na época, não se percebia quão autobiográfico era. Uma grande cantora volta a Londres para tentar recuperar a guarda dos filhos, que vivem com o pai. Ronald Neame dirige, Dirk Bogarde faz o ex-marido. Judy canta divinamente, mas sua vida, e as emoções, estão destroçadas. Nesse quadro, tanto na ficção como na realidade, o arco-íris virou mais que símbolo. Metáfora. Terá sido por cantar Over the Rainbow que ela virou ícone gay? O pai, informa o diálogo, era homossexual. Um dos maridos, o cineasta Vincente Minnelli, senão era gay, era bissexual. O que sobra em Judy é o carinho dos fãs. Do par gay, em cuja casa ela passa um raro momento de ternura, e Goold ecoa o clássico Meu Passado Me Condena/Victim, de Basil Dearden, com Dirk Bogarde. Durante todo o filme a questão é – Judy vai cantar Over the Rainbow? Veja, é emocionante.

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