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Análise: 'Na Vertical', um painel bastante heterodoxo da França profunda

Embora desafiador quanto à possibilidade de se deixar resumir numa sinopse, vale tentar algumas indicações.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2017 | 04h00

O título do filme, Na Vertical (Rester Vertical, no original francês), só se explica no final. Quer dizer, explica-se um pouco, e até certo ponto, já que este novo filme de Alain Guiraudie é cercado de mistério. Tom que aumenta sua potência, ao desafiar o espectador tanto do ponto de vista intelectual como sensorial. 

Trata-se, também, de um desafio para a crítica. Como em seu longa anterior, O Estranho no Lago, também neste, Guiraudie enfrenta o desafio das imagens explícitas de sexo, sem ser de maneira alguma vulgar. Neste, no entanto, ele adensa o sentido de enigma e potencializa a linguagem alusiva dos personagens, procedimentos que dão ao filme uma consistência ainda maior que a do anterior. 

Embora desafiador quanto à possibilidade de se deixar resumir numa sinopse, vale tentar algumas indicações. O suposto protagonista, Leo (Damien Bonnard), é um cineasta que ronda pelo interior da França em busca de ideias para seu próximo filme. Conhece na beira da estrada um jovem que julga atraente e tenta, sem sucesso, trazê-lo para o elenco do filme. Descobre que o rapaz mora com um velho e as relações entre os dois parecem ambivalentes. Depois, Leo conhece uma jovem pastora de ovelhas, Marie (India Hair), que conversa longamente com ele sobre o perigo que os lobos trazem ao rebanho. A moça é mãe solteira, tem dois filhos e mora com o pai. Uma atração entre ela e Leo nasce rapidamente. A história tem desdobramentos, com a chegada de um novo filho e a continuidade do relacionamento de Leo com esses personagens interioranos, enquanto troca telefonemas desesperados com o produtor, que exige informações sobre o desenvolvimento do roteiro. 

Mas uma pequena sinopse como esta não dá conta do espírito de um filme que, sem abusar das relações absurdas, avança a contrapelo das expectativas do espectador. É difícil, senão impossível, adivinhar os passos seguintes da obra. O filme avança sempre no rumo do inesperado. Os elementos simbólicos - os lobos, as ovelhas, os homens e mulheres em seus relacionamentos -, tudo isso compõe um painel bastante heterodoxo da França profunda. O campo, a atmosfera pastoril, antes sinônimo de clareza e apaziguamento em relação à cidade, agora aparece numa densidade misteriosa que antes não tinha. 

Na Vertical é original e profundo. Tira o espectador da sua expectativa passiva e habitual em relação à obra que vê na tela. 


 

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