Ruth Albuquerque
Ruth Albuquerque

Análise: Na obra notável de Roberto Farias, destaca-se o filme ‘Selva Trágica’

Diretor de cinema e TV realizou a trilogia com Roberto Carlos e provocou polêmica com as imagens de tortura no regime militar em 'Pra Frente, Brasil'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2019 | 03h00

Roberto Farias foi presidente do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica e o primeiro cineasta a presidir a Embrafilme. Realizou a trilogia com Roberto Carlos e provocou polêmica com as imagens de tortura no regime militar em Pra Frente, Brasil, que venceu o Festival de Gramado. Foi assistente, montador, roteirista, produtor, diretor e distribuidor. Dele se podia dizer que conhecia a cadeia completa do cinema.

Tendo se iniciado na chanchada, na Atlântida, realizou em 1959 Cidade Ameaçada, início de uma trilogia interpretada por seu irmão Reginaldo Faria e que prosseguiu com Assalto ao Trem Pagador e Selva Trágica. O primeiro deu-lhe credibilidade perante a crítica, o segundo foi um memorável sucesso de público. O terceiro, o melhor de todos – sua obra-prima –, foi tão mal de bilheteria que quase comprometeu a empresa de Roberto. Ele fez a comédia Toda Donzela Tem Um Pai Que É Uma Fera e emendou com a trilogia de Roberto Carlos para se ressarcir.

Talvez por isso ele tenha tido sempre uma relação meio ambígua com sua adaptação do romance de Hernani Donato. Ao repórter, que sempre lhe cobrou a restauração do filme, Roberto Farias respondia com evasivas. Já é tempo de esclarecer em definitivo a questão.

Por mais brilhante que seja Assalto ao Trem Pagador como modelo de policial brasileiro – e lição de cinema narrativo –, Selva Trágica possui uma força que não se compara a nenhum outro filme do diretor e está no panteão das grandes obras do cinema brasileiro.

É o filme viscontiano de Farias. Seus temas são a utilização do trabalho escravo do homem e a utilização sexual, como coisa, da mulher. Na trama do filme, Reginaldo Faria trabalha na exploração de erva mater na fronteira paraguaia. A mulher, Rejane Medeiros, é escravizada como prostituta. São dois alienados fisicamente. Vivem uma intensa e desesperada história de amor.

Na cena emblemática, a câmera coloca-se no chão para acompanhar o esforço hercúleo do homem que tem de levantar uma carga que o esmaga. O casal tenta fugir. É perseguido pelo chefe do mato, Maurício do Valle, o Antônio das Mortes de Glauber Rocha. Selva Trágica não é um filme. É um monumento de cinema.

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