Tucuman Filmes
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Análise: Múltiplas vozes recriam, em filme, todas as vidas de Cora Coralina

Esposa, mãe, doceira, escreveu desde muito cedo, mas publicou muito tarde. 'Cora Coralina: Todas as Vidas' tenta dar conta dessa multiplicidade de talentos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2017 | 06h00

Dois dos maiores filmes do ano são obras sobre poesia, e poetas. Paterson, de Jim Jarmusch, desvenda a poesia do cotidiano e, no papel-título, oferece a Adam Drive a oportunidade de uma criação memorável. O artista como um homem comum, mas nenhuma vida, e menos ainda a de um poeta, é comum. O filme é sobre o processo de criação e sobre o que há de extraordinário na simplicidade. Drive está sendo – o ano não terminou – provavelmente o melhor ator de 2017. A melhor atriz é Cynthia Nixon, e justamente pelo outro grande filme de poesia. Além das Palavras, de Terence Davies, desvenda o universo de Emily Dickinson. A mulher no universo masculino. O domínio das palavras por uma solitária que viveu pela família, para a família.

Cora Coralina: Todas as Vidas, de Renato Barbieri, não tem a grandeza – nem a sofisticação – de nenhum dos dois, mas, em contrapartida, sua construção ‘nas bordas’ propõe uma alternativa interessante para contar a história de Anna. Um ‘docfic’, documentário ficcional. Cora é o nome artístico, e a poeta, que Drummond considerava a pessoa mais importante de Goiás, teve, como diz o título, inúmeras vidas. Esposa, mãe, doceira, escreveu desde muito cedo, mas publicou muito tarde. O filme tenta dar conta dessa multiplicidade de talentos.

+++Filme retrata a vida de Cora Coralina com poemas e histórias

Usa entrevistas, fotos, reconstituição e um recurso que remete à caverna de Platão – a sombra de Cora projetada na parede. Sendo múltipla a mulher, têm de ser múltiplas as atrizes. Maju Souza, Camila Márdila e Walderez de Barros, recitando, vivenciam diferentes momentos da vida de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que se tornou conhecida como Cora Coralina. Sua poesia tem muito de confessional, autobiográfica. Mas é o tom que a faz particular. Mistura subjetivismo com força épica – é epilírica. Mais duas vozes agregam-se para ilustrar a poesia, e a vida – Beth Goulart e Zezé Motta.

+++ TV Estadão: Walderez de Barros fala sobre 'Cora Coralina: Todas as Vidas'

O diretor Barbieri, brasiliense, foi um dos fundadores da Olhar Eletrônico, produtora de onde também saíram Marcelo Tas e Fernando Meirelles. Dispersaram-se, cada um seguiu seu caminho. Em 2005, dirigiu As Vidas de Maria. Por meio de Maria – interpretada por diferentes atrizes, em diferentes momentos de sua vida –, Barbieri contava a história de Brasília. No centro de seu cinema mais autoral, está sempre a mulher.

 

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