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Análise: 'Mate-me por Favor' navega por dentro do universo teen brasileiro

Longa de Anita Silveira da Rocha não deixa de ter relações com suspense

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2016 | 05h00

Mate-me por Favor. O título remete a um daqueles antigos filmes noir, cheios de clima e suspense. O longa de Anita Silveira da Rocha não deixa de ter relações com esse gênero. Mas, como verá o espectador, amolda-se muito mais ao ambiente brasileiro que às enfumaçadas atmosferas de Los Angeles. Não tem tipos durões ou femmes fatales. Falta-lhe glamour, e isso, julga-se, é proposital. 

Na verdade ambienta-se no universo teen e numa localidade precisa - a Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio, com seus condomínios modernos e amplos terrenos vazios. É na noite da Barra que o filme começa com a perseguição e assassinato de uma jovem. O corpo aparece no dia seguinte, num terreno baldio. Assassinato e estupro, talvez. O primeiro de uma série de crimes que vai atormentar o grupo de adolescentes moradores nas vizinhanças e que estuda no mesmo colégio. 

Os crimes pairam sobre o grupo e, compreensivelmente, se tornam o assunto dominante entre os jovens. Mas Anita aproveita a trama para lançar um olhar documental ao modo de vida dessa moçada. Seus namoros, o experimento com o sexo, as rivalidades, as agressões, a experiência da morte, os pais ausentes. 

A opção é radical. De modo geral, vemos os adolescentes um tanto deslocados num mundo de adultos, que ainda detêm o poder e o dinheiro. Em Mate-me por Favor, os adultos estão ausentes. Não são vistos, na prática. Às vezes, ouvem-se suas vozes, em especial no colégio. Mas são nulos. É um mundo jovem. E este é o mundo da perplexidade, tanto que às vezes nem se dá conta dessa situação. 

Se o medo e a insegurança os envolvem, a opção é muito mais pela atmosfera, pelo clima do terror, do que por cenas explícitas. Há essa atmosfera de expectativa, uma angústia desenhada em planos longos, com uma trilha sonora inspirada e uma edição de som muito boa. 

Podem-se encontrar influências estéticas aqui ou ali. Preferia dizer que se nota certo diálogo com a estranheza dos filmes de David Lynch ou a imersão radical no universo teen como em Gus Van Sant. Anita tempera referências com citações da poesia mórbida de Augusto dos Anjos e alusões ao caso real da atriz Daniella Perez, assassinada em 1992. Em todo caso, o filme respira essa violência latente no Brasil, e um pouco em toda parte. O apuro formal apenas a ressalta ainda mais. 

 

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