REUTERS/Mario Anzuoni
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Análise: Lina Wertmüller explorou absurdo, grotesco e humor às vezes pesado

Trabalho de Lina era cômico, sarcástico mesmo, mas antenado na questão social, nos abismos entre classes, no olhar atento ao mundo proletário

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 11h08

Assistente de Federico Fellini em duas obras-primas, A Doce Vida e 8 ½, Lina Wertmüller aprendeu do “maestro” o gosto pelo absurdo, pelo humor às vezes pesado e pelo grotesco. Em uma das cenas mais famosas da filmografia da cineasta, morta aos 93 anos, vê-se o protagonista de Pasqualino Sete Belezas (1975), vivido por Giancarlo Giannini, esforçando-se para satisfazer os desejos da enorme comandante de um campo de concentração nazista. Ela lhe entrega um prato de comida e ordena: “Primeiro coma; depois faça amor”. Missão dada, missão cumprida. 

Pasqualino tinha esse apelido por causa de suas sete irmãs - nada formosas. Sobrevive ao campo de concentração por suas virtudes de amante latino involuntário e, ao ser libertado, reencontra a noiva em pleno exercício da prostituição. 

Essa comédia grotesca fez sucesso mundial e valeu à cineasta três indicações ao Oscar. Foi, inclusive, a primeira cineasta mulher a disputar o prêmio de melhor direção na Academia de Hollywood. 

Era assim o trabalho de Lina, pelo menos naqueles em que acertava a mão do jeito que desejava. Cômico, sarcástico mesmo, mas antenado na questão social, nos abismos entre classes, no olhar atento ao mundo proletário, pelo qual essa mulher, nascida aristocrata, tinha carinho, mas sem endeusamento. 

Lina havia começado com O Basilisco, filme ambientado no sul da Itália, seguido por dois trabalhos mais comerciais com a cantora e atriz Rita Pavone (aquela da canção Datemi un martello).

Na verdade, o talento de Lina já era reconhecido antes de Pasqualino Sete Belezas. Em Mimi o Metalúrgico (1972), questionava a mecanização do trabalho. Em outra das cenas famosas da diretora, Mimi enlouquece na linha de montagem da fábrica pela brutalidade da tarefa repetitiva. 

Filme de Amor e Anarquia reúne de novo a dupla favorita de Lina - Giancarlo Giannini e Mariangela Melato. Aqui é a história de um camponês anarquista que vai para Roma com o intuito de matar o líder fascista Benito Mussolini, mas conhece uma prostituta que o acolhe em um bordel e acaba se apaixonando. 

De sua filmografia, ficam esses filmes notáveis, a maior parte produzidos nos anos 1970 - Mimi, o Metalúrgico, Filme de Amor e Anarquia e Pasqualino Sete Belezas. O primeiro longa, O Basilisco (1963) é, talvez, uma obra a ser redescoberta, assim como Por um Destino Insólito (1974) e Speriamo que se la cavo (1992), com Paolo Villagio como protagonista. Mas são mesmo os filmes da década de 1970, aos quais pode-se incluir Por um Destino Insólito (1974) que formam esse todo coerente que define um estilo e que entra para o imaginário cinéfilo internacional e não apenas italiano. 

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