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Análise: Lady Susan e as mulheres ‘à frente’ na obra do diretor

Whit Stillman gosta de contar como, há bem uns 20 anos, Rob Reiner e ele foram contactados por produtores de Hollywood para uma adaptação de Jane Austen

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2016 | 05h00

Whit Stillman gosta de contar como, há bem uns 20 anos, Rob Reiner e ele foram contactados por produtores de Hollywood para uma adaptação de Jane Austen. Quem terminou fazendo Razão e Sensibilidade foi Ang Lee, e o filme deu à atriz Emma Thompson o Oscar de roteiro adaptado. Na época, Stillman montava Barcelona, estava encantado com as discotecas e preferiu fazer Os Últimos Embalos da Disco, com Kate Beckinsale e Chloë Sevigny. Passado todo esse tempo – estava escrito –, ele fez a sua Jane Austen, e com Kate e Chloë. Mas não foi fácil. Os produtores não queriam Kate no papel. Stillman preferiu trocar de produtores para manter a atriz.

Pense em Emma Thompson (Razão e Sensibilidade), em Keira Knightley (Orgulho e Preconceito). As heroínas de Jane Austen são boazinhas. Numa época – a Inglaterra do século 18 – em que as mulheres se definiam pelo casamento, Jane dramatizou a condição feminina e escreveu livros que ainda desafiam os acadêmicos. Foi conservadora ou protofeminista? E o que dizer dos que a consideram a maior escritora de todos os tempos? Exageros à parte, Amor & Amizade abre novo espaço de discussão na abordagem da autora. O título é uma liberdade poética do diretor, já que ele se baseou em Lady Susan, livro póstumo de Jane, que não quis publicá-lo em vida (e batizado por seu sobrinho). 

Lady Susan difere das demais heroínas da autora, mas não porque o casamento não ocupe o centro de suas preocupações. É que, num certo sentido, ela é uma peste e faz o que é preciso para concretizar um duplo objetivo – recuperar o amante casado e casar a própria filha. A filha torna-se rival da mãe, atraída por um homem que corteja Lady Susan, e ela dispensa. Mais do que Ang Lee (Razão e Sensibilidade) ou Joe Wright (Orgulho e Preconceito), Stillman é um moderno reinventando a literatura clássica. O espaço íntimo torna-se público, e Lady Susan recebe no quarto o pretendente, algo impensável na época da recatada Jane Austen, que pertencia à pequena nobreza agrária e nunca se casou. A filha, Frederica, sai da igreja e troca a roupa molhada de Reginald. Para o espectador do século 21, a cena não possui o significado que teria tido por volta de 1800. Aquilo seria o máximo do ‘caliente’ e Frederica, provavelmente, estigmatizada como perdida.

Entre seus primeiros filmes – Os Últimos Embalos da Disco, de 1998, já era uma ‘period piece’, ambientada no começo dos 80 – e a adaptação de Jane Austen, Whit Stillman fez grande sucesso de crítica com The Cosmopolitans, série (com Adrian Brody e Chloë Sevigny) sobre um grupo de expatriados norte-americanos em Paris. É um autor que transita entre a modernidade e o cinema de época, mas sempre com uma agenda própria. Há muitos anos, entrevistado pelo Estado – na época de Últimos Embalos da Disco –, Stillman confessou que a grande comédia dos anos 1930 e 40 era sua referência. Katharine Hepburn, ele disse, foi uma pré-feminista. Em seu cinema, as mulheres estão sempre à frente dos homens. Lady Susan, sua amiga norte-americana, a filha. E, no centro de tudo, Kate Beckinsale. Bela, talentosa – absoluta. Stillman fez bem em batalhar para que ela fosse sua atriz.

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