Jean-Paul Pelissier/Reuters
Jean-Paul Pelissier/Reuters

Análise: Júri do Festival de Cannes recompensou filmes medíocres

Havia dois grandes filmes na competição, e ambos saíram de mãos abanando

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 19h51

CANNES - Ao contrário de Pedro Almodóvar, que chegou no ano passado visivelmente irritado e depois admitiu que fora traído por seu júri – chorou ao dizer que preferia que a Palma de Ouro tivesse sido atribuída ao drama 120 Batimentos por Minuto, do marroquino Robin Campillo –, a presidente deste ano, Cate Blanchett, chegou radiante, dizendo que havia sido reconfortante trabalhar com gente tão apaixonada. 

+++Palma de Ouro vai para diretor japonês; confira premiados

Há controvérsia se esse júri fez a lição de casa. Havia dois grandes filmes na competição. Leto (Verão), do russo Kirill Serebrennikov, e o turco A Pereira dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan. Coincidentemente, um passou primeiro e o outro, por último. O júri preferiu recompensar filmes medíocres. Isso não o tornou menos soberano em suas decisões.

Já que os melhores não iam ganhar, havia a expectativa de que o júri, predominantemente feminino e integrado por uma militante afro-americana – Ava DuVernay – premiasse Spike Lee por sua nova provocação, BlacKkKlansman. O filme, baseado em fatos reais, conta a história de um policial negro que se infiltra na organização racista KKK, a Ku Klux Klan, nos anos 1970. O próprio Spike Lee, que já havia sido preterido outras vezes, começou a achar que, dessa vez, ia ganhar. Os prêmios sucediam-se e sobravam poucos. Benicio Del Toro subiu ao palco para anunciar o Grand Prix. Spike Lee! Ele fez o que se esperava. Um discurso forte, pau em Donald Trump, mas havia algo de blasé naquilo tudo.

A Palma de Ouro foi atribuída a um cineasta que há anos participa da competição e tem sido premiado. Hirokazu Kore-eda volta ao tema da família, contando a história de um grupo que assalta lojas. Shoplifters, Um Negócio de Família. Eles se unem e permanecem juntos para roubar, mas sem laços afetivos. Percebe-se que o tema é a cara do diretor, mas o autor já fez coisas melhores. 

Por irregular – pouco rigorosa – que tenha sido a premiação, o júri teve suas cota de acertos. Atribuiu a Jean-Luc Godard uma Palma de Ouro especial, por Le Livre d’Image. Deu o prêmio de melhor ator – entregue por Roberto Benigni – a Marcello Fonte, o ‘Buster Keaton’ de Dogman, de Matteo Garrone. Benigni foi aplaudido de pé. Confira no site do festival, ou no YouTube. 

Num ano marcado pela participação feminina – e pelo debate feminista – todo mundo apostava numa premiação de gênero. O júri não apenas recuou como deixou de premiar os melhores. Deu seu prêmio – do júri – para Capharnaüm, de Nadine Labaki, sobre a infância abandonada de Beirute, e o filme claramente inspira-se, inclusive pela experiência de improvisação, no episódio dela, O Milagre, paro o filme Rio Eu Te Amo, de 2014, ambientado na região portuária carioca. Mais mulheres foram ganhando – a italiana Alice Rohrwacher, de Lazzaro Felice, fábula com referências à Bíblia sobre um jovem e ingênuo camponês em sua trajetória de generosidade e bondade, dividiu o prêmio de roteiro com o iraniano Jafar Panahi, de Trois Visages, que faz um retrato de seu país ao falar sobre o tratamento dispensado às mulheres.

O filme de Alice é interessante, o dele foi um dos melhores da seleção. E houve o prêmio de melhor atriz para Samal Yeslyamova, por seu papel em Ayka, do cineasta do Casaquistão, Sergey Dvortsevoy. Trata-se de um drama sobre as dificuldades de uma mãe desempregada e seu filho nas ruas de Moscou. Impossível imaginar filme mais duro sobre a mulher no universo dos homens.

Vencedor do Oscar por Ida, o polonês Pawel Pawlikowski ganhou agora o prêmio de direção por Guerra Fria, Cold War. Uma história de amor – um homem e uma mulher que não conseguem viver juntos nem separados na Polônia dos anos 1940 a 60. 

O júri defendeu-se de suas escolhas dizendo que o festival foi muito bom, muito exigente. Não foram tantos grandes filmes assim, e os melhores, o que depõe contra o júri, foram ignorados. A própria crítica deixou a desejar. A Fipresci premiou, como melhor filme da competição, Burning, do sul-coreano Lee Chang-dong, baseado em conto de Haruki Murakami, que trata de jovem que muda para Seul e reencontra a garota Haemi, por quem se apaixona, mas ela desaparece. Deviam estar brincando com o público. 

A Federação da Crítica acertou, contudo, no melhor filme da mostra Un Certain Regard – Girl, do cineasta de Flandres Lukas Dhont. O filme conta a história de uma menina de 15 anos que sonha ser bailarina, mas está aprisionada num corpo de rapaz. Lukas, de 27 anos, está sendo considerado a revelação do festival deste ano. Muitos o comparam a Xavier Dolan. Girl ganhou também a Caméra d’Or e a Palma gay, como melhor filme de temática LGBT. O curta Órfão, da brasileira Carolina Markowicz, ganhou a Queer Palma da categoria. Trama fala do adolescente Jonathas, que depois de adotado é devolvido para o orfanato por ter um caráter afeminado.

Mais conteúdo sobre:
Festival de Cannes [cinema] cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.