Marcos Arcoverde/Reprodução Estadão
Marcos Arcoverde/Reprodução Estadão

Análise: João Silva, o homem do povo que se impõe por seu talento

Documentário refaz a trajetória de João Silva, parceiro de Luiz Gonzaga em mais de 100 composições

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2017 | 05h00

Danado de Bom, de Deby Brennand, tem uma característica parecida com a de outro documentário, o notável O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreiro. Ambos tratam de compositores que, apesar da importância, acabaram ofuscados pelo brilho de uma estrela como Luiz Gonzaga. No caso de Lírio, o personagem era o sofisticado Humberto Teixeira. No de Deby, o intuitivo João Silva. 

Calcula-se que João tenha feito cerca de cem músicas em parceria com Gonzaga. Não se sabe ao certo por que, como era tradição na música brasileira, parcerias às vezes funcionavam como moedas de troca em que o novato aceita dividir a autoria de uma música com alguém mais famoso com a contrapartida de ver sua obra divulgada. 

Dito isso, a história de João Silva é notável, como são as sagas de pessoas humildes que conseguem superar condições muito desvantajosas e se impõem por seu talento, e nada mais. O próprio João vai refazendo sua biografia, contando como deixou sua Arcoverde (PE) natal para tentar a sorte no Rio. Na antiga capital, conheceu Luiz Gonzaga e assim tem início a parceria. João relembra de tudo com muita graça e humor. Deu certo trabalho à diretora pois gostava de fazer piada com tudo. Morreu em 2013, sem ver o filme pronto.

Outra opção torna ainda melhor o documentário. Não se contenta com a narrativa de uma trajetória singular e inclui muita música, para prazer do espectador. Esse se surpreende ao constatar que sucessos atribuídos apenas a Luiz Gonzaga são, na verdade, parcerias entre os dois. Caso de Pagode Russo, interpretado pelo próprio compositor, mas também por Elba Ramalho, Lenine e outros. 

Em função do caráter dispersivo do personagem, o longa levou oito anos para ser feito. Era difícil encontrar e manter o foco da narrativa. Mas isso não se vê no corte final. Redondinho, o documentário, como bom baião, segura-se no ritmo. É gostoso de ver e ouvir - como promete seu título, tirado de uma das músicas da dupla, responsável, aliás, pelo Disco de Ouro de Gonzaga em 1984. 

Danado de Bom, para além de seu DNA musical, traz uma entrelinha das mais tocantes ao mostrar o talento de um homem pobre, que vence por sua inteligência e malícia, sem qualquer outro auxílio. É como dizia o grande escritor paraibano Ariano Suassuna: o melhor do Brasil é mesmo o homem do povo. O pior, bem, vocês já sabem.

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