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Análise: 'Indignação' é uma adaptação reverente da obra de Philip Roth

Filme de James Schamus se passa em um momento antes de todas as rebeliões da década de 1960, que estabeleceram os padrões que persistem até o presente

Reuters

03 de novembro de 2016 | 10h12

Primeiro longa dirigido pelo premiado roteirista James Schamus, baseado no romance homônimo de Philip Roth, Indignação parece situar-se num outro planeta tamanhas as transformações que o mundo passou --em termos morais, sociais e culturais-– desde os anos de 1950 até hoje.

É um momento antes de todas as rebeliões da década de 1960, que estabeleceram os padrões que persistem até o presente.

O protagonista é Marcus Messner (Logan Lerman), jovem judeu de Newark que trabalha no açougue do pai amoroso e controlador (Danny Burstein), e tem uma mãe compreensiva (Linda Emond).

O ano é 1951. Para evitar ser convocado para a Guerra da Coreia, o rapaz entra para uma universidade em Winnesburg, Ohio, o que parte o coração do pai, que jamais teve o filho longe dele, mas também o deixa aliviado, afinal, seu filho não morrerá na guerra, como o do vizinho.

O mundo se abre para Marcus longe da casa dos pais -- agora ele é, finalmente, dono de sua vida. Uma de suas primeiras atitudes é não aceitar o convite para participar de uma fraternidade composta apenas por rapazes judeus.

O protagonista é um rebelde que se declara ateísta e fala de forma complexa, beirando o esnobismo. Mas há algo de vulnerável nisso tudo, uma máscara que esconde suas fragilidades e medos diante de um mundo que ele pouco conhece.

Entra em cena outra aluna da universidade, Olivia Hutton (Sarah Gadon): jovem, loura e pura. No primeiro encontro, eles saem para jantar em um restaurante francês caro. Logo depois, dentro do carro, ao lado de um cemitério, a inocência dele é enterrada junto com os mortos.

A personagem feminina é complexa --uma cicatriz num pulso dá conta de seu passado--, mas o retrato dela no filme não é tanto, pois ela parece existir apenas para ser objeto do desejo do protagonista e satisfazer às necessidades sexuais dele. O que é a mesma posição de muitas personagens femininas ao longo da obra de Roth.

Lançado em 2008, Indignação é um romance de Roth que deve muito a um de seus grandes sucessos, O Complexo de Portnoy, de 1969. Marcus é, porém, um retrato pálido de Portnoy -- e isso certamente tem a ver com o momento de escrita de cada um dos dois livros. O primeiro foi produzido na era das contestações, dos questionamentos e da possibilidade de revoluções. O mais recente encontra um cenário no qual o conservadorismo ganha força e, curiosamente, deveria ser o mais forte, contestador, ultrajante, mas não é o caso, pois deixa-se contaminar pela época de sua produção.

Schamus --roteirista de filmes com O Segredo de Brokeback Mountain e O Tigre e o Dragão-- é excessivamente reverente a Roth. Ao seu filme devem ser associadas palavras como “bom gosto” e “comprometimento”, mas isso nem sempre corresponde a elogios. 

Há algo de frio aqui, muito calculado, que torna o resultado um tanto anódino, e a jornada do protagonista, às vezes, vazia. Ainda assim, há uma cena central e longa entre Marcus e o reitor da universidade (interpretado pelo dramaturgo Tracy Letts) que sinaliza toda a força do material.

Nela, o diretor --que também assina o roteiro-- não faz concessões. Em um diálogo que transita entre o patético e o cômico, abarcando todas as variações entre as duas pontas, ele cria um embate entre gerações, entre visões de mundo, e mostra tudo aquilo que seu filme poderia ter sido.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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