REUTERS/Lucas Jackson
REUTERS/Lucas Jackson

Análise: Hollywood, aos 90, celebra diversidade e segunda chance

Oscar 2018 foi marcado pelo tom fortemente político, à altura do momento

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 Março 2018 | 19h30

Havia a expectativa de um Oscar fortemente político, à altura do momento. Com as mulheres em pé de guerra e movimentos como #MeToo e Time’s Up à frente das denúncias de assédio na indústria, a entrega dos prêmios da Academia, a exemplo do Globo de Ouro, em janeiro, seria uma vitrine e tanto para marcar presença ou tomar posição. A própria Academia, temerosa, incentivou um Oscar mais comprometido com o espetáculo. Afinal, a festa também necessita de audiência.

Mais do que em anos anteriores, as mulheres se fizeram muito presentes nos filmes. As mulheres e os negros. A surpresa (anunciada) foram os latinos. Todo mundo já dava como contado que Guillermo del Toro, após Alfonso Cuarón e Alejandro González Iñárritu, seria o terceiro mexicano a emendar quatro prêmios em cinco anos. A latinidade prosseguiu com a cultura mexicana retratada na animação Viva e o Chile tomando assento no panteão do Oscar por vencer o prêmio de filme estrangeiro com Uma Mulher Fantástica.

Justamente o longa de Sebastian Lelio. Não devem existir pessoas ilegítimas, disse nos bastidores o cineasta, que, para reforçar a ideia, conta a história de uma mulher trans que tem de ir à luta para enterrar o companheiro. No ano das mulheres, e dos negros – Jordan Peele levou o Oscar de roteiro original por Corra! –, houve espaço para a diversidade sexual. Além de Daniela Vega, a ‘mujer fantástica’, Me Chame Pelo Seu Nome expressou o mundo gay com propriedade. Vencedor do Oscar de roteiro adaptado, James Ivory – o mais velho premiado da história – fez discurso de militante, lembrando o companheiro de uma vida, o produtor Ismail Merchant.

E chegamos à premiação principal – o 90.º Oscar foi justo? Não, né – Trama Fantasma ficou com uma mísera estatueta. Nenhuma surpresa nos prêmios de interpretação – Frances McDormand, a melhor atriz, e Sam Rockwell, o melhor coadjuvante, por Três Anúncios Para Um Crime. Gary Oldman, o melhor ator, por O Destino de Uma Nação, e Allison Janney, a melhor coadjuvante, por Eu, Tonya.

Todos esperados, senão exatamente merecedores. Talvez tenha sido surpresa o Oscar de filme para A Forma da Água, mas não o de direção para Del Toro. Quase centenária, a Academia celebrou num clipe a própria história, e o sonho. Del Toro dirigiu-se aos jovens, à sua capacidade de sonhar, à sua imaginação. Nada de muito novo – O Labirinto do Fauno, do próprio Del Toro, era melhor.

Velha dama (in)digna, a Academia chamou de novo Warren Beatty e Faye Dunaway para que corrigissem o erro do ano passado. Hollywood, sem segunda chance, não existe, e a Academia sabe disso.

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