Aline Arruda /DIVULGACAO
Aline Arruda /DIVULGACAO

Análise: Hector Babenco buscou o cinema com um ideal de beleza límpida, sem concessões à pieguice

Mas nem sempre alcançou isso, em especial com seus trabalhos de ordem mais memorialística

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2016 | 13h46

Hector Babenco era uma pessoa por vezes muito dura e essa característica se reflete - de maneira positiva, a meu ver - em seu cinema. Esse traço talvez se deva à sua trajetória de vida, embora sempre seja complicado psicologizar a arte. Nascido em Buenos Aires, e criado em Mar del Plata, Babenco saiu da Argentina com 17 anos. Foi para a Europa, segundo com ele com pouco mais de US$ 20 no bolso, e perambulou por cinco anos e vários países. Sobrevivia de pequenos expedientes e, na volta à América do Sul, evitou seu país de origem por não ter feito o serviço militar. Veio para São Paulo e aqui se instalou, aproximando-se do cinema. Mas antes chegou a vender terrenos de cemitério para sobreviver.

Com boa bagagem intelectual, o que o diferenciava no meio, e também outro tanto de ceticismo, foi forjando seu estilo direto, muito rigoroso na forma narrativa e na direção de atores. Essa concepção já aparece em seu primeiro longa de ficção, O Rei da Noite (1975), com Paulo José no papel do boêmio que vive da exploração de mulheres. Há também essa preocupação de colocar o basfond em contracampo, o que empresta veracidade ao relato.

Em Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia (1977), a tendência naturalista se acentua. Aqui se trata de retratar a figura do marginal Lúcio Flávio Vilar Lírio, famoso nos anos 1970 por suas denúncias da corrupção policial. O filme é duro, tenso, violento, com um Reginaldo Faria estupendo no papel-título. Foi um sucesso: 5,4 milhões de espectadores, 6ª maior bilheteria do cinema brasileiro (ou 7ª, se considerarmos os números de Os Dez Mandamentos). A história do bandido em seu confronto com autoridades corruptas representava uma espécie de desafogo em época de ditadura.

No entanto, é com Pixote (1980), seu longa seguinte, que Babenco alcança repercussão internacional. O retrato verossímil porém poético da infância desassistida comove, mas também induz à reflexão. A “Pietà” com o garoto Fernando Ramos da Silva no regaço da prostituta interpretada por Marília Pêra talvez fique como a sua cena mais significativa. Babenco buscava o realismo e, no interior deste, a imagem justa a se impor na tela. Era a realização de um ideal de beleza límpida, sem concessões à pieguice.

Com a notoriedade de Pixote, Babenco pôde dar início a uma carreira de fato internacional. São três as suas coproduções com os Estados Unidos: O Beijo da Mulher Aranha (1984), Ironweed (1987) e Brincando nos Campos do Senhor (1990). Trabalhando com elencos formidáveis, compostos por gente como William Hurt, Jack Nicholson, Meryl Streep, Kathy Bates e outros, o antigo outsider concorreu ao Oscar e viu seu nome ser reconhecido em todos os países de expressão cinematográfica.

Conheceu também o lado B da fama, a interferência dos produtores. Em especial no caso de Brincando nos Campos do Senhor, que ficou com mais de 4 horas de duração e foi cortado para 3h09, o que já é muito, mas deixou-o desfigurado como sempre se queixava o diretor.

O seu retorno à temática brasileira foi triunfal, com o êxito de Carandiru (2003). Com 4,7 milhões de espectadores é o 5º filme brasileiro mais visto após a Retomada. Baseia-se na obra do médico Drauzio Varella e faz uma radiografia (às vezes realista outras

alegórica) do gigantesco presídio paulistano, hoje desativado. O filme, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 2003, ilustra esse aspecto da trajetória de Babenco: a capacidade de dirigir filmes rigorosos, de temática urgente, tratada sem concessões e, mesmo assim, estabelecer diálogo com o público. Nem sempre alcançou isso, é bom que se diga.

Em especial com seus trabalhos de ordem mais memorialística como Coração Iluminado (1997-98), O Passado (2007) e Meu Amigo Hindu (2015). São filmes muito intimistas e pessoais (embora O Passado seja baseado no romance homônimo de Alan Pauls), banhados por uma tensão psicanalítica muito forte e pressionados pela reavaliação de vida na iminência da morte, diante de uma doença grave, de cura incerta e tratamento muito sofrido. O câncer linfático, do qual Babenco se tratou, encontra-se no limiar destas ficções que falam muito de si e portanto interessam a todos, embora este último, Meu Amigo Hindu, tenha sido tachado de egoico e autorreferente por muitos.

De toda forma, foi o filme que Babenco quis fazer e hoje passa como seu testamento. William Dafoe como seu alterego, representando-o em seu calvário, e a magnífica cena em que, reconduzido à vida, o cineasta assiste à mulher amada dançar na chuva para ele. Mesmo quem não gosta do filme concede que é uma das mais belas sequências do cinema brasileiro recente.  Uma saída de cena marcada, quem diria, pela sensualidade, pela poesia e a alegria de se sentir vivo.

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