Diego Lopez Calvin
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Análise: Graça surreal e tom libertário salvam ‘Quixote’ de Terry Gilliam

'O Homem que Matou Dom Quixote' é um dos destaques entre as estreias de cinema da semana; filme levou 30 anos para ser feito

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2019 | 03h00

Talvez o Quixote de Terry Gilliam seja uma das produções mais tumultuadas da história. A primeira tentativa deu-se em 1998, com Jean Rochefort, Johnny Depp e Vanessa Paradis no elenco. Não rolou. Após oito tentativas de recomeço, por fim O Homem que Matou Dom Quixote chega às telas com o elenco totalmente diferente: Jonathan Pryce (Quixote), Adam Driver (Toby Grisoni) e Olga Kurylenko (Jacqui).

Com tal confusão, poderíamos temer a catástrofe desta criativa adaptação do clássico de Miguel de Cervantes. Na verdade, veem-se na tela as marcas de tantas confusões, idas e vindas e trocas de elenco. No entanto, quase por milagre, o talento de Gilliam sobressai aqui e ali, pontuando de magia esta versão contemporânea daquele que é considerado o primeiro romance moderno. Também o Quixote de Orson Welles dialoga com o mundo moderno, e esta versão igualmente enfrentou problemas, ficando inconclusa.

A batalha travada por Gilliam se dá no campo da metalinguagem, filme dentro do filme. Adam Driver faz Toby, o cineasta que roda um primeiro Quixote na Espanha e volta anos depois para novo trabalho. Nessa retomada, ele revê o sapateiro (Pryce) que interpretara Quixote na primeira obra. E encontra o homem “tomado” pelo personagem, pois quem uma vez foi Dom Quixote nunca deixa de sê-lo.

Fiel ao espírito da obra, Gilliam aborda uma montanha de temas. O Quixote original já é metalinguístico. No segundo volume de Cervantes, o Cavaleiro da Triste Figura encontra personagens que o haviam lido no primeiro tomo. Além disso, propõe um debate sobre a sanidade e razão, em aberto até hoje, pelo menos para as mentes esclarecidas. Fala do indivíduo contra a ordem estabelecida. E trava um diálogo entre as artes, uma vez que o Dom Quixote original, recorde-se, era um fervoroso leitor dos romances de cavalaria.

Toby (Adams), a princípio cínico diretor de filmes publicitários, vê-se arrastado pelo Quixote alucinado a uma série de aventuras surrealistas, transformando-se em Sancho Pança involuntário. Há beleza nisso tudo, inclusive na forma como Gilliam aponta os efeitos, nem sempre benéficos, de uma obra cinematográfica sobre uma comunidade simples. Em meio ao tumulto de sua produção, o filme respira por sua graça surreal, tom libertário e sabedoria singela. Salva-se por essa verdade interna.

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