Werther Santana/Estadão
O cineasta Ugo Giorgetti Werther Santana/Estadão

Análise: Filmes revelam um humor inteligente e um tanto melancólico de Ugo Giorgetti

Com uma retrospectiva de 12 filmes e mais duas pré-estreias do cineasta, o Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca comemora seus 20 anos de existência

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 05h00

Com uma retrospectiva de 12 filmes e mais duas pré-estreias de Ugo Giorgetti, o Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca comemora seus 20 anos de existência. A mostra começa dia 29 com a exibição dos dois Boleiros - fértil diálogo de Giorgetti com o futebol - e prossegue até dia 5 de agosto. 

Entre as atrações, estão os dois inéditos, com pré-estreias paralelas à retrospectiva - a ficção Dora e Gabriel e o documentário Paul Singer - uma Utopia Militante. Na ficção, Giorgetti radicaliza sua opção por espaços fechados, reduzindo-o ao mínimo na claustrofóbica convivência forçada de um casal vítima de sequestro. No doc, resgata a figura de Singer, grande economista de vocação progressista, espécime raro entre nós. 

Boleiros 1 e 2, os títulos escolhidos para as primeiras sessões, já passaram à história do cinema brasileiro como formas exemplares de retratar o nosso esporte mais popular sob a forma de ficção. O "toque" de Giorgetti é perceptível em ambos: a admiração pelo esporte, o carinho com os atletas aposentados, um certo desencanto com o presente, o humor delicado. 



O primeiro Boleiro tem um subtítulo com ar de fábula, Era uma Vez o Futebol. O segundo, Vencedores e Vencidos remete à dura realidade. São retratos complementares de quem perde e quem ganha em uma atividade que começou como puro amadorismo e terminou como negócio global. O futebol elitizou-se, transformou estádios em arenas reservadas aos que podem pagar e marginalizou o público mais pobre.  Mandou seus melhores craques para o exterior, onde vivem como celebridades globais e ganham como xeiques. Há no cinema de Giorgetti o sentimento sobre aquilo que passou, mas ele não chega a ser um exercício de nostalgia. Apenas constatação crítica. 

Esse sentimento faz-se presente em outro título,  O Príncipe (2002), com o personagem vivido por Eduardo Tornaghi como alguém que, tendo vivido muito tempo no exterior, na volta não reconhece o país de onde saiu. Ou melhor, a cidade onde nasceu e morou na juventude - a São Paulo que cresceu de forma desordenada, perdeu o seu centro e sua alma.

De certa forma, esta é outra vertente de Giorgetti, um desdobramento de sua sensibilidade. A consciência do paulistano, descendente de italianos, de que a sua cidade em algum momento quebrou a bússola e entrou em processo irreversível de entropia. 

São Paulo é o cenário habitual dos filmes. Seja no habitat dos jogadores aposentados de Boleiros, seja na Vila Madalena e no centro da cidade desfigurados na percepção de O Príncipe. Ou no cômico Uma Noite em Sampa (2016), sátira sobre o grupo que vai assistir a uma peça de teatro e encontra o ônibus que o conduziria de volta à casa fechado e sem motorista. As pessoas perdidas na metrópole, sem referenciais, sem a quem recorrer, entregues a si próprias. Situação um tanto kafkiana, mas que é também a do brasileiro com a vida encalacrada num país inviável.

 


Em Jogo Duro (1985), uma mulher e sua filha moram num casarão desocupado no bairro chique do Pacaembu. Cobiçando as duas mulheres, dois homens em situação social semelhante à delas, um guarda noturno e um empregado da imobiliária. 

Quebrando a Cara (1986) é um documentário sobre o nosso maior campeão de boxe, Éder Jofre, mas também um retrato bastante curioso da família de lutadores Zumbano-Jofre e do bairro paulistano do Peruche, onde Éder cresceu. 

Solo (2009) traz Antônio Abujamra no monólogo de um personagem cáustico, auto-irônico, que não se reconhece no tempo presente e vê a cidade onde mora (São Paulo, claro) como um pesadelo do qual não consegue despertar. 

A Cidade Imaginária (2014) é uma crônica dos imigrantes italianos que chegam a São Paulo sem ter a menor ideia do que os aguarda. Já Paredes Nuas (2009) discute a prisão de um empresário patrono das artes pelo olhar dos empregados da casa, da sua esposa e advogado. 

A sátira da decadência, ambientada num décor paulistano perfeito para esse propósito, é também o molde de um dos mais bem-sucedidos filmes de Giorgetti, a comédia dramática Sábado (1994). Ambientada num edifício que já conheceu dias melhores, põe em cena dois grupos heterogêneos - a arraia miúda que habita o prédio outrora chique e a equipe publicitária que utiliza o imóvel para a gravação de um comercial. Dois brasis (dos muitos existentes) fazem-se presentes e, da convivência forçada, chocam-se mutuamente.

A visão não é neutra - e nem poderia ser. O artista inclina-se pelos pequenos, pelos "perdedores" e pelos anônimos. Estes, na luta pela sobrevivência, às vezes conseguem uma revanche mínima. Por isso, diante da urgência burguesa, um personagem (vivido pelo semiólogo e poeta concreto Décio Pignatari) pode proclamar que "o tempo do lúmpen é outro". Não possui dinheiro, mas também não se escraviza a compromissos chatos e pode curtir em paz seu sambinha na laje do edifício. 

Festa (1985), vencedor do Festival de Gramado, antecede esse ambiente de espaço fechado e de mirada irônica sobre o conflito de classes sociais. Aqui, os contratados para entreter os convidados esperam longamente na cozinha a chamada para se juntarem aos grã-finos na parte social da casa. Uma comédia com o tom triste de um Dino Risi e a consciência de absurdo de um Dino Buzzati. 

Mesmo num filme mais diretamente político como Cara ou Coroa (2012), a marca desse cinema é a busca pelo menor, pelo mais discreto, pela margem. No enfrentamento da ditadura militar, o protagonista não é o guerrilheiro que entrega a vida pela causa, mas o pequeno militante. Aquele que arrisca a pele em missões modestas e contribui, de maneira anônima, para a derrota da ditadura. 

O traço constante dessa cinematografia é esse olhar de esguelha, em busca do personagem menos notado e pouco cultuado. Ele ganha papel protagônico, o coadjuvante sobe para a frente da cena. Essa inversão de perspectiva é articulada sob a forma de um "humor frio", conceito importado de Luigi Pirandello pela pesquisadora Rosane Pavan para estudar a obra de Giorgetti em sua dissertação de mestrado (publicada sob forma de livro como O Cineasta Historiador, pela Alameda). 

Humor frio não significa falta de afeto, mas apenas o humor que provoca o sorriso discreto e não a gargalhada. É o humor inteligente e um tanto melancólico de Ugo Giorgetti.  

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Cineasta Ugo Giorgetti é homenageado com uma retrospectiva

Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca, que completa 20 anos em 1.º de agosto, promove uma retrospectiva dedicada ao autor com 12 títulos

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

27 de julho de 2021 | 05h00
Atualizado 27 de julho de 2021 | 12h55

Ugo Giorgetti comemorou, recentemente, 79 anos. Em maio do ano que vem, no dia 28, serão 80. A data redonda ganha a homenagem antecipada no Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca, que completa 20 anos em 1.º de agosto e promove uma retrospectiva dedicada ao autor, com 12 títulos, a partir desta quinta, 29 - a partir do dia 6 (e até 5 de outubro), a mostra estará disponível gratuitamente na plataforma de streaming Itaú Cultural Play. “Sou um velho cercado de mortos”, Ugo reflete, sem mágoa. Os amigos foram sempre importantes - Antonio De Francheschi, Roberto Piva. Ele se lembra quando, jovem, ia aos cinemas para ver os filmes do neorrealismo e da nascente nouvelle vague. A italianidade estava no DNA, mas a nova onda, por volta de 1960, era o cinema dos jovens. “Vimos Os Primos, do (Claude) Chabrol, e comentávamos como aquilo era novo.” 

 

 

Naquela época, não pensava que seria cineasta, nem publicitário. Filho de pai engenheiro e mãe professora, vivia a juventude despreocupada de um garoto da classe média paulistana. Mas consciência não lhe faltava. Começou a achar que já era tempo de ganhar o próprio sustento. A publicidade veio assim. “Ganhava muito bem”, lembra. Foi parar na Alcântara Machado, uma grande agência. Fez todas aquelas (novas) amizades - atores, técnicos. Tornou-se cineasta. Produziu seus clássicos. Festa, de 1989, Sábado, 1994, Boleiros 1 e 2, de 1998 e 2006. 

Colocou o Brasil numa festa, os bacanas e o pessoal da cozinha, divididos pela desigualdade. Uma equipe de publicidade invade um prédio do centro velho para gravar um comercial e o elevador quebrado cria a maior confusão com os moradores. Amigos reúnem-se em rodas de bar para discutir futebol. No inédito Dora e Gabriel, que terá pré-estreia durante a programação, o casal assaltado vai parar no porta-malas do carro. A vida aqui fora, eles lá dentro. Todos esses filmes refletem as transformações na cidade - São Paulo - em que Ugo nasceu, cresceu, fez-se homem. “Não consigo dizer que isso foi intencional, refletir sobre a cidade, mas ela faz parte da minha vida e da vida das personagens.” 

O cinema, segundo Giorgetti. Outro paulistano ilustre do cinema, Roberto Santos, bebeu na fonte social do neorrealismo em O Grande Momento, no final dos anos 1950. Giorgetti fez outro percurso. O humor de Mario Monicelli, seu favorito, mas com um viés particular. Os grandes filmes de Giorgetti são minimalistas, enxutos até o limite. O diálogo lembra o dos grandes escritores norte-americanos, Ernest Hemingway, como os mestres das narrativas policiais. Todo esse melting point fez parte da sua geração e forjou o autor singular que ele é. Giorgetti já tem estrada suficiente, como realizador de documentários e ficções, para saber como é misterioso o processo de criação. 

“Muitas vezes o significado profundo que me levou a fazer determinados filmes só apareceu mais tarde.” O tempo no processo criativo. “É muito importante, tenho a impressão de que o tempo dos personagens, da própria sociedade, atravessa meu cinema. Já ouvi que o tempo confere uma dimensão filosófica ao meu trabalho.” Pode ser. Afinal, lá atrás, ele frequentou a faculdade de filosofia por dois anos. “Essas coisas marcam a gente, me marcaram.” Palmeirense, o futebol sempre fez parte da sua vida e inspirou um de seus melhores filmes, Boleiros, com direito até a sequência. Não apenas. A par das ficções, Giorgetti também fez Pelé Eterno e Um Craque Chamado Divino

 

 

Em Boleiros - o 1 -, todos aqueles amigos que se reúnem para falar de futebol são desdobramentos do próprio diretor e roteirista. O que dizem as pessoas, como falam. “Como descendente de imigrantes acho que a minha obra termina refletindo esses linguajares. A São Paulo do começo dos anos 1950, da época de Eder Jofre, que documentei em Quebrando a Cara, de 1986, não é a mesma de O Príncipe, de 2002.” Nesse quadro emerge um personagem como Paulinho Majestade, de Boleiros - Era Uma Vez o Futebol - o verdadeiro príncipe, no cinema de Giorgetti, é ele. 

“No Majestade, eu projetei a história de um grande craque santista, Joel Camargo. Ele chegou a ser campeão do mundo em 1970, mas na reserva. Era um grande jogador que teve muitos reveses na vida.” O que os franceses chamam de ‘mauvaise étoile’. A má estrela. Majestade é precioso porque permite fazer uma distinção importante no cinema de Giorgetti, entre tipo e personagem. O tipo é pitoresco, o personagem é trágico. Grande Paulinho, grande Joel Camargo. O cinema - e o futebol - agradecem.

Beirando os 80, Giorgetti encara sem tristeza a própria finitude. “Ainda posso fazer mais alguns filmes, e quero fazer, mas o grosso da minha obra já está concluído.” 

Sentimentalismo? “Se há uma coisa à qual sou avesso é isso.” Melancolia? É onde entra a influência dos mestres da comédia italiana. “Se existe, disfarço bem”, ele conta. O repórter polemiza um pouco. Giorgetti ama Monicelli, O Incrível Exército de Brancaleone, Parente É Serpente. Voltam as histórias de imigrantes. Paul Singer, o grande economista, fundador do PT, que Giorgetti documentou em Uma Utopia Militante, exibido no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade em abril deste ano. 

“O que mais me atraiu nesse trabalho foi a possibilidade de mostrar o homem de ação.” Singer chegou criança ao Brasil, integrando uma família de judeus austríacos que fugia do nazismo. Terminou fundamentando o conceito da economia solidária. Talvez a melhor definição para o artista homenageado nos 20 anos do Espaço Itaú do Frei Caneca seja a seguinte - com a limpidez de seu estilo, Giorgetti aprimorou, ao longo dos anos, a arte de dizer as coisas complicadas de forma simples e direta.

 

 

As salas do shopping Itaú Frei Caneca completam 20 anos e a comemoração inclui reprises como a de ‘Cidade de Deus'

Quando começou a pensar numa programação especial para comemorar os 20 anos do Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, Adhemar Oliveira não contava que a efeméride viesse no meio da crise sanitária que colocou o Brasil na vanguarda do número de mortos em todo o mundo. A epidemia do coronavírus paralisou o mercado exibidor de cinema no ano passado. Os filmes foram retomados, principalmente no streaming. Nas salas, a frequência continua caída, mas, com os 80% da população de São Paulo vacinada, a expectativa é de que esses números comecem a melhorar. Adhemar aposta na programação de aniversário para atrair mais público. 

Embora o Shopping Frei Caneca tenha sido inaugurado em maio de 2001, os cinemas demoraram mais um pouco para começar a funcionar - em 3 de agosto daquele ano. O conceito era novo - “A ideia, desde o início, considerando-se que são salas de shopping, era mesclar o cinema de arte que estava no nosso DNA - meu, do Leon (Cakoff) - com os blockbusters”, lembra Adhemar. “Houve um estranhamento inicial, por parte do público. Os cinéfilos de carteirinha achavam que a gente estava desvirtuando o conceito da arte, mas, com o tempo, as pessoas passaram a entender a proposta. Os filmes de grandes estúdios podem conviver pacificamente com a produção brasileira e a independente de vários lugares do mundo. Formamos nosso público fiel”, ele avalia. 

A pandemia afastou a massa desses espectadores, mas agora as pesquisas apontam para cerca de 20% do público de 2019, já que o de 2020 foi nulo. Rememorando - com nove salas, bonbonnière, cafeteria e aquela área de convivência que tem abrigado exposições de fotos, o Frei Caneca recebeu, ao longo desses 20 anos, mais de 8 milhões de espectadores que assistiram a cerca de dez mil filmes. O conjunto de salas abrigou mostras e eventos e promoveu ações de formação e ampliação de público, como o Clube do Professor, o Clube Jovem, Clube da Terceira Idade e Sessão Popular. Foram criados complexos semelhantes em diferentes regiões do Brasil, abrigando a mesma diversidade de programas e de ações que tem facilitado o livre acesso ou o desconto no valor dos ingressos. 

 

 

Para comemorar a data redonda, o Itaú Frei Caneca resgata a obra de um autor importante, que também festeja seus 80 anos em 2022. “Ao longo desses 20 anos, o Espaço estabeleceu uma parceria com Ugo (Giorgetti). Todos os filmes dele passaram aqui com a gente. Vamos ter uma semana com a reapresentação de 11 filmes e a pré-estreia de Dora e Gabriel. No total, serão 12 títulos. O Ugo é esse cara finíssimo. Diante de tudo o que acontece no Brasil e no mundo, creio que será muito bacana resgatar essa espécie de gentileza que está no centro da obra dele.” Os filmes irão, na sequência, para a plataforma Itaú Cultural Play

Nas demais salas, Adhemar seguirá resgatando outros títulos e autores necessários do cinema brasileiro. “O que esse cara tem feito pela promoção e divulgação do cinema feito no País é o que nos permite seguir em frente. Não preciso nem lembrar que estamos sofrendo com esse governo totalmente refratário à produção artística nacional, e não só o cinema”, reflete Giorgetti. A partir de quinta, também será possível (re)ver dois premiados filmes nacionais - Memórias Póstumas, de André Klotzel, e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, o primeiro de 2001, o segundo de 2002, ambos contemporâneos da inauguração do Espaço. 

Baseado no clássico da literatura brasileira Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis - que já havia inspirado o Brás Cubas, de Júlio Bressane, de 1985 -, o filme de Klotzel venceu cinco prêmios no Festival de Gramado. Além do Kikito de melhor direção, ganhou os prêmios de melhor filme do júri e da crítica, mais as estatuetas de melhor roteiro, do próprio Klotzel, e o de melhor atriz coadjuvante para Sônia Braga, como Marcela. Cidade de Deus virou o maior fenômeno do cinema brasileiro da época. Os anos 1990 haviam se pautado pela chamada “retomada”, após a política de terra arrasada do governo Collor, e não apenas para a cultura. 

Com o título de City of God, o filme fez carreira internacional e foi indicado para quatro Oscars, inclusive o de direção. No Brasil, parte da crítica alimentou uma polêmica que rendeu réplicas e tréplicas. O diretor Meirelles teria transformado a estética da fome do Cinema Novo em cosmética. Ancorado na discussão, o filme fez sucesso de público e, em Hollywood, até Steven Spielberg quis saber do diretor como havia sido feita a cena da galinha, no começo - com imaginação, mais do que com dinheiro.

Outro destaque da programação é A Melhor Juventude, a história da Itália dos anos 1960 aos 2000, através da ligação de dois irmãos. Marco Tullio Giordana fez, em 2003, sua obra-prima, que só cresce com o tempo.

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